Cenário Macroeconômico Global 2026: Perspectivas e Impacto nos Investimentos
- Por Hike Capital
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Brasil
No Brasil, um dos principais temas foi o redirecionamento da política monetária: o Copom manteve a Selic em 15,00% e, ao mesmo tempo, sinalizou que pode iniciar um ciclo de cortes a partir da próxima reunião, desde que o cenário de queda da inflação e de desaceleração dos setores industriais e de serviço continuem. A mensagem foi dupla: abertura para início de flexibilização, mas com compromisso explícito de manter a política monetária em território restritivo por tempo suficiente para consolidar a convergência da inflação à meta.
Na curva de juros, o mês combinou dois movimentos relevantes. De um lado, a perspectiva de início de cortes mais à frente ajudou a reduzir parte do prêmio na parte intermediária da curva, especialmente conforme a comunicação do Banco Central reforçou “serenidade” e dependência de dados. De outro, o mercado voltou a exigir prêmio na ponta longa diante do ruído institucional associado às indicações para a diretoria do Banco Central, com interpretações de que alguns nomes poderiam aumentar o risco de interferência política e, por consequência, elevar a incerteza sobre as oscilações futuras no câmbio e, posteriormente, na inflação.
A crescente necessidade de resgates de ativos, por parte do Japão, em ativos americanos foi suficiente para um aumento expressivo na oscilação das bolsas globais. Foi sinalizada uma intenção de venda de Cerca de 620 bilhões de dólares em ações e ETFs americanos, após convocação de reunião emergencial no país.
Em bolsa, janeiro foi marcado por renovação de máximas e melhora de sentimento, com o Ibovespa registrando sucessivos recordes nominais ao longo do mês. A previsão de resultados das empresas para o fechamento do ano de 2025 tem mostrado um avanço significativo no ciclo de desalavancagem, crescimento das margens e recuperação dos lucros, mesmo antes da taxa Selic começar a cair, o que reflete em melhores condições de valuation. No entanto, a valorização do índice torna-se limitada por conta das empresas de commodities, que podem reduzir avanços mais significativos, ou até mesmo corrigir o índice mais a frente.
A maior proximidade com as eleições e incertezas em relação ao dólar exige uma alocação mais seletiva e centrada em valor. Os setores de concessão de rodovias, aluguel de veículos leves e pesados, transporte e armazenagem de cargas, farmácias e educação devem liderar a performance ao longo de 2026, atraindo um fluxo de capital mais expressivo e resiliente, devido às seguintes razões:
– Maior velocidade no ciclo de desalavancagem (redução nos níveis de endividamento),
– Redução significativa nos níveis de CAPEX e capital de giro para financiar crescimento e manutenção na base de ativos,
– Maior previsibilidade de receitas e elevada recorrência no lucro operacional (EBIT), mesmo em um cenário de desaceleração econômica ou de juros restritivos por um período prolongado.
Essas variáveis, em conjunto, serão suficientes para elevar o patamar de geração de caixa das empresas presentes nos setores mencionados acima, favorecendo o ganho de escala e a reprecificação desses ativos em bolsa de valores. Permanecemos com um viés pessimista para grande parte das commodities agrícolas, metálicas e energéticas como petróleo e etanol.
Estados Unidos
Nos Estados Unidos, a narrativa foi dominada por dois temas: política econômica e arcabouço de política monetária. Do lado macro, houve sinais de melhora pontual de atividade no início do ano, com a indústria voltando a território de expansão em janeiro, em parte refletindo recomposição de estoques e antecipação de compras diante de incertezas comerciais. Ao mesmo tempo, o noticiário seguiu sugerindo que a volatilidade de sinalizações políticas e ameaças tarifárias aumentam o ruído para decisões de investimento e cadeia de suprimentos, elevando o “prêmio de incerteza” na precificação.
No campo institucional, a nomeação de Kevin Warsh como próximo presidente do Federal Reserve foi interpretada como uma postura mais conservadora a frente. Warsh é conhecido por sua atuação técnica, reduzindo riscos de interferência política nas decisões da autarquia, assim como tem defendido políticas de redução do balanço do FED via venda de titulos, o que reduz a quantidade de moeda em livre circulação e pressionaria a curva de juros americana, com reflexo positivo na cotação do dolar diante de moedas emergentes. Essa leitura ganhou tração nos mercados porque a combinação “juros curtos menores e aumento de venda de títulos longos pelo Fed” irá pressionar os vértices longos da curva de juros, elevando a volatilidade em ativos de risco americanos e de emergentes.
Essa mudança de expectativas também se refletiu em ativos de proteção. O ouro e a prata, após a valorização expressiva, sofreram correção abrupta no fim de janeiro, com leitura de dólar mais forte, realização de lucros por parte de fundos expostos aos metais, e ajustes rápidos de posicionamento após a mudança no cenário de política monetária. A mensagem para o mercado foi menos sobre “fim da tese de proteção” e mais sobre sensibilidade elevada a eventos de política econômica.
Permanecemos com um viés pessimista para ações de empresas de tecnologia e instituições financeiras listadas em bolsa americana, por conta de uma desaceleração no crescimento dos lucros e aumento expressivo no CAPEX. Adicionalmente, acreditamos que as empresas de tecnologia estejam subestimando os níveis de investimento necessários para suportar o crescimento da inteligência artificial e computação em nuvem.
Por outro lado, permanecemos otimistas com os setores de (1) infraestrutura energética, (2) transporte marítimo via aluguel de embarcações porta contêiner, (3) tratamento de dados para a inteligência artificial e (4) componentes nucleares e (5) fabricação de wafers para semicondutores.
Esperamos melhorias constantes nos resultados das empresas presentes nesses setores, marcada por crescimento de receita, aumento de margens e menos consumo de caixa com CAPEX, capital de giro e juros da dívida.
Kevin Warsh - Novo presidente do FED.
União Europeia
A zona do euro começou 2026 com crescimento econômico moderado, superando expectativas no 4º trimestre de 2025 com expansão de 0,3% trimestral, o que indica resiliência apesar de desafios estruturais e incertezas externas. Espanha liderou, seguida por Alemanha e França com crescimento ligeiramente acima do esperado. Os indicadores de atividade econômica mostraram uma lenta expansão, com o PMI composto caindo a 51,3, o menor em meses, refletindo desaceleração na demanda e serviços ainda em crescimento lento. A entrada de novos negócios no setor de serviços e geração de emprego permaneceram estagnados.
Os dados oficiais de inflação da Euribor de janeiro 2026 mostraram que o CPI da zona do euro caiu para 1,7% (abaixo do objetivo de 2%), com a inflação subjacente também em queda, sugerindo um ambiente de pressões de preço mais fraco do que o esperado. Isso reforça as expectativas de que o Banco Central Europeu (BCE) mantenha as taxas de juros estáveis por um período prolongado, mesmo diante de um euro forte que pode limitar exportações e pressionar ainda mais o CPI.
Na arena política e geoeconômica, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, participou de eventos significativos em janeiro, incluindo:
- Condenação das repressões no Irã;
- Visita diplomática à Síria com promessa de assistência financeira;
- Conclusão e assinatura formal do acordo de livre comércio Mercosul-União Europeia, um marco de décadas de negociação com potencial impacto estrutural no comércio agroindustrial e industrial entre os blocos.
Esse acordo, ainda sujeito à aprovação parlamentar nos países da UE e do Mercosul, poderia ampliar fluxos comerciais e competitividade industrial no longo prazo, além de reconfigurar relações comerciais com impactos sobre cadeias globais.
Ursula Von der Leyen - Presidente da UE.
Japão
No Japão, a mensagem do Banco do Japão permaneceu hawkish na direção, ainda que a decisão do mês tenha sido de manutenção. Após elevar a taxa para 0,75% em dezembro, o BoJ manteve o juros inalterados em janeiro e sinalizou que o ciclo de normalização segue condicionado à dinâmica de inflação e, sobretudo, às evidências mais consistentes de crescimento de salários.
O iene depreciado e a pressão de custos importados continuam como variáveis centrais para o comitê, alimentando o debate interno sobre risco de “ficar atrás da curva” e antecipando, para o mercado, uma probabilidade maior de nova alta ainda no primeiro semestre. Na primeira semana de fevereiro o governo anunciou uma reunião de emergência para a venda de ativos americanos no valor próximo a U$ 620 bilhões, suficiente para aumentar substancialmente a volatilidade em ativos de risco global.
Os indicadores de atividade mostram que o setor de serviços japonês acelerou no início de 2026, com o PMI de serviços acima de 53, refletindo expansão sustentada e forte ritmo de novos pedidos, emprego e demanda externa. A indústria também surpreendeu com expansão, com o PMI manufatureiro alcançando seu nível mais alto em cerca de 3 anos e meio, impulsionado por forte produção, novos pedidos e melhorias no cenário global de exportações.
O Japão se prepara para as eleições gerais marcadas para 8 de fevereiro de 2026, um evento político importante que pode influenciar percepções de risco, reformas econômicas e pacotes de estímulo fiscal. O governo de Sanae Takaichi esteve ativo com propostas de estímulo fiscal e investimentos em tecnologia, embora com desafios demográficos e macroeconômicos a serem equacionados.
Banco central do Japão (BoJ)
China
Na China, o mercado leu uma combinação de estímulos direcionados e gestão cuidadosa de alavancas macro. O PBoC reiterou disposição de reduzir compulsórios e juros ao longo do ano e, já em janeiro, realizou cortes em taxas de instrumentos estruturais voltados a setores específicos (inovação, verde, inclusão), buscando apoiar crescimento sem recorrer imediatamente a uma flexibilização ampla de referência. A mensagem é de política acomodatícia, mas calibrada, com o objetivo de sustentar atividade e confiança em um contexto de desaceleração gradual.
Em commodities, a China permaneceu no centro da dinâmica do minério de ferro. Apesar de evidências de ajuste estrutural na siderurgia chinesa, o país manteve importações robustas e, em 2025, importou volume recorde de minério, enquanto preços foram sustentados por recomposição de estoques e por demanda mais resiliente em outras regiões asiáticas. No início de janeiro, o noticiário de estímulos voltados a consumo ajudou a dar suporte a valorização do minério, impulsionando as ações de empresas como a Vale.
A economia chinesa fechou 2025 com crescimento em linha com a meta oficial de cerca de 5%, mesmo enfrentando desafios de consumo fraco e um mercado imobiliário em contração contínua. Pesquisas de analistas projetam que o PIB oficial para 2026 será fixado entre 4,5% e 5%, um ritmo menor do que anos anteriores, pressionando os formuladores de políticas a considerar estímulos mais agressivos ou reorientações econômicas. Esse cenário incerto reduz a probabilidade de a recuperação das commodities avançarem.
A economia chinesa em 2026 está no contexto da implementação formal da 15ª Plana Quinquenal (2026–2030), que enfatiza capacidade industrial, inovação tecnológica, auto-suficiência e menos dependência de estímulos cíclicos, sinalizando uma transição de modelo econômico por setores estruturais. O presidente Xi Jinping expressou ambições para que o renminbi se torne uma moeda de reserva global, o que, se avançar, poderia introduzir novo dinamismo — ou volatilidade — no ambiente cambial e de capitais global.
Xi Jinping - Presidente da China
Oriente Médio
No Oriente Médio, o petróleo oscilou com um prêmio geopolítico relevante, em um ambiente em que fundamentos de oferta e demanda convivem com riscos de interrupção e sanções. Bancos e casas de análise destacaram que tensões regionais, sanções e incertezas sobre a evolução das negociações com o Irã adicionaram prêmio ao barril, mesmo com discussões sobre eventual excesso de oferta mais adiante. Para o investidor global, isso se traduz em maiores incertezas de cenários para inflação, com aumento na oscilação das curvas de juros.
Criptoativos
O bloco de criptoativos teve um janeiro mais defensivo, com correção de preços e queda do apetite a risco, em especial nos fundos de investimento atrelados às moedas digitais. Segundo a CoinShares, produtos de investimento em ativos digitais registraram saídas semanais de aproximadamente US$ 1,7 bilhão (segunda semana consecutiva), com destaque para Bitcoin, que concentrou cerca de US$ 1,09 bilhão em resgates, o maior volume desde meados de novembro de 2025. A relevância desse dado não está apenas no número absoluto, mas no contraste com as semanas de entrada observadas em outros momentos do ciclo, pois sinaliza mudança de regime no posicionamento institucional: menos fluxo comprador e maior preferência por liquidez e proteção, o que tende a ampliar movimentos de queda em ativos mais voláteis e com menos fundamentos sólidos no curto prazo, especialmente em ativos digitais e ações de empresas de tecnologia.
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