A reação dos mercados ao segundo turno das eleições

Ibovespa, dólar e juros futuros devolveram em um único pregão todo o movimento acumulado desde o primeiro turno, e a B3 acionou o circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020.

Ibovespa

−14,8%

174.660 pontos. Mínima de 169.516 (−17,3%). O Índice Small Caps chegou a recuar 27,3%.

Dólar (PTAX)

+9,2%

R$ 5,5007, ante R$ 5,0377 na sexta. No mercado à vista, a máxima foi de R$ 5,605 (+12,3%).

DI janeiro/2031

+3,15 p.p.

De 12,64% para 15,79% ao ano (315 pontos-base), a maior alta entre os vértices da curva.

Tesouro IPCA+ 2032

+1,38 p.p.

De IPCA + 6,72% para IPCA + 8,10% ao ano. O Tesouro cancelou leilões e recomprou R$ 7,1 bilhões em prefixados.

IbovespaPontos
entre turnos 160 mil180 mil200 mil agosetout recorde: 209.067 174.660
DólarR$ por US$ (PTAX)
entre turnos 4,805,005,205,40 agosetout mínima: 4,97 R$ 5,50
DI janeiro/2031% ao ano
entre turnos 12%13%14%15%16% agosetout mínima: 12,23% 15,79%

Fechamentos diários de 3 de agosto a 23 de outubro de 2026; o último ponto, em vermelho, corresponde a 26 de outubro (dados parciais, 15h). A área sombreada marca o período entre o primeiro e o segundo turno. DI janeiro/2031: contrato futuro de juros negociado na B3, que expressa a taxa média esperada para o CDI até janeiro de 2031.

A reversão da aposta eleitoral

No primeiro turno, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, ante 45,16% de Lula, e os preços passaram a refletir maior probabilidade de alternância de governo. No pregão seguinte, o Ibovespa subiu 7,7% e o DI janeiro/2031 recuou 134 pontos-base (1,34 ponto percentual). Em 9 de outubro, o índice renovou a máxima histórica, aos 209.067 pontos, e o dólar chegou a ser negociado abaixo de R$ 5,00.

A vitória de Lula no segundo turno, com 51,79% dos votos válidos, desfez esse cenário em um único pregão. O Ibovespa voltou ao nível do fim de agosto, enquanto o dólar e os juros superaram os patamares anteriores ao primeiro turno.

Preços que ignoravam o cenário externo

Entre o fim de agosto e 23 de outubro, o Ibovespa subiu 16,7%. No mesmo período, o rendimento do Treasury de 10 anos (título do Tesouro americano) passou de 4,72% para até 5,31%, o maior nível desde abril de 2002, e o Federal Reserve retomou o ciclo de alta de juros.

O Treasury é a taxa livre de risco de referência global. Quando seu rendimento sobe, aumenta a taxa de desconto aplicada aos lucros futuros das empresas e o valor justo das ações diminui, sobretudo nos emergentes, que precisam pagar um prêmio adicional sobre essa taxa. A bolsa brasileira chegou ao segundo turno com pouca margem para absorver um resultado adverso.

Outros registros do pregão

O EWZ, fundo de ações brasileiras negociado em Nova York, recuou 20,7%, somando a queda da bolsa à do real.

O Tesouro IPCA+ 2050 perdeu 23,6% do valor de mercado, e o Tesouro Direto abriu com quase três horas de atraso.

Exportadoras como a Vale (+4,9%) ganharam com o dólar; varejistas como Magazine Luiza chegaram a cair 58,5%.

Fontes: B3, Banco Central do Brasil (PTAX), Tesouro Nacional, TSE, Federal Reserve e Yahoo Finance. Dados de 26/10/2026 parciais, coletados às 15h, sujeitos a revisão. Taxas do DI até 23/10: curva referencial de ajuste da B3.

Nossa visão

Cautela com o Brasil, oportunidade nos EUA

O comportamento de juros e câmbio dependerá da sinalização fiscal do novo mandato.

Nossa visão para os ativos brasileiros é de cautela. O cenário externo combina ciclo de alta de juros nos Estados Unidos, inflação em aceleração em diversas economias e conflitos geopolíticos em escala global, com o petróleo acima de US$ 100. Sem um plano consistente para conter o crescimento dos gastos e reduzir a rigidez do orçamento (despesas obrigatórias por lei), o país fica exposto a um novo ciclo de desvalorização do real, com reflexo na inflação e nos juros.

Fed Funds

3,75%–4,00%

Primeira alta desde 2023; 76% de chance de outra em dezembro.

Inflação nos EUA

3,7%

CPI em 12 meses até setembro; 3,4% em agosto.

Treasury 10 anos

4,98%

Pico de 5,31% em outubro; 4,69% no começo de agosto.

Petróleo Brent

US$ 111

Por barril; US$ 84 no começo de agosto.

A restrição fiscal

Os preços de ações e de renda fixa incorporam o efeito das promessas de campanha, como a tarifa zero no transporte aos fins de semana (custo estimado de R$ 11,8 bilhões a R$ 20,8 bilhões por ano), e antecipam um cenário mais adverso para juros e inflação.

A despesa com juros nominais do setor público somou R$ 1,182 trilhão em 12 meses até agosto (8,86% do PIB), cerca de 27% da arrecadação tributária, de 32,4% do PIB em 2025. Mais gastos e mais dívida deixam duas alternativas: novos aumentos de impostos ou maior emissão de títulos públicos.

O principal risco para a bolsa

O mercado não demonstrou interesse em financiar o governo a taxas menores: o Tesouro IPCA+ 2032 passou a pagar IPCA + 8,10% ao ano, isto é, a inflação do período acrescida de 8,10% de juro real. As taxas tendem a subir até que haja demanda compradora suficiente para emprestar recursos ao governo.

Juros cada vez maiores e uma moeda mais fraca retiram poder de compra da população, reduzem o lucro das empresas e elevam o comprometimento da renda das famílias, enquanto empresas e governo desaceleram os investimentos privados e sociais.

Posicionamento

ClasseVisãoRacional
Renda variável
Ações BrasilNeutraAguardamos sinais claros de direcionamento político e de contenção de gastos.
Ações Brasil: setores defensivos e empresas em desalavancagemOtimistaReceita resiliente, balanço sólido e dívida em queda reduzem a exposição a juros mais altos e à desaceleração do consumo.
Ações americanasOtimistaApós as correções recentes e a alta dos Treasuries, vemos uma janela oportuna de entrada; a exposição em dólar também protege contra a desvalorização do real.
Renda fixa
Títulos públicos IPCA+PessimistaDependem do déficit nominal, da oferta de títulos públicos, do IPCA e dos juros globais; todas essas variáveis atuam hoje de forma negativa.
Títulos e fundos CDIOtimistaCrédito privado com estruturas de baixo risco e retorno entre CDI + 2% e CDI + 5%.
Bonds e TreasuriesOtimistaA alta acelerada dos Treasuries, com pico próximo de 5,3%, o maior nível desde abril de 2002, abriu uma janela para alocação em bonds. A demanda segue sólida, o que reforça nossa expectativa de que o ciclo de alta de juros nos EUA esteja próximo do fim.

IPCA+: títulos que pagam a inflação acrescida de juro real. CDI: taxa de referência das aplicações pós-fixadas, que acompanha a Selic. Bonds: títulos de renda fixa no exterior.
Fontes: Banco Central do Brasil, Tesouro Nacional, BLS, Federal Reserve, CME FedWatch, XP, NTU e Yahoo Finance. Material informativo; não constitui oferta ou recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura.