Economia do Japão em 2026: iene, juros e inflação
- Por Angelo Belitardo
Comércio exterior, energia, inflação, iene, juros e a transmissão para os Treasuries americanos.
Dados até 19 de outubro de 2026. Fontes: Ministério das Finanças do Japão (MOF), Banco do Japão (BoJ), Departamento do Tesouro dos EUA (TIC) e Federal Reserve Bank of St. Louis (FRED).
- 01Comércio exterior e energiaDéficit comercial, dependência de petróleo e o efeito do Estreito de Ormuz.
- 02Inflação, preços ao produtor e subsídiosPor que a inflação ao consumidor está abaixo de 2% com preços de importação 24% mais altos.
- 03O ieneCâmbio real no menor nível da série, intervenções recordes e fluxos estruturais de saída.
- 04A curva de jurosTítulos de 30 e 40 anos em recorde histórico e o juro básico no maior nível desde 1995.
- 05Quem compra os títulos japonesesRetirada do BoJ, cautela das seguradoras e leilões fracos.
- 06Japão e os Treasuries americanosVendas de títulos dos EUA, canais de transmissão e retorno com proteção cambial.
- 07Política fiscal e visão dos bancosOrçamento recorde, custo da dívida e projeções de JPMorgan, Goldman, Morgan Stanley e outros.
- 08Propostas de solução e sinais a monitorarO que recomendam FMI, Blanchard, Rogoff, Kuroda e o próprio governo.
01Comércio exterior e energia
Um país que importa quase toda a energia que consome
O conflito no Golfo Pérsico encareceu o petróleo e levou a balança comercial mensal de volta ao déficit.
A balança comercial (exportações menos importações de bens) registrou déficit de ¥ 1,11 trilhão em agosto de 2026, o quarto mês negativo seguido e o maior desde janeiro. As importações cresceram 28,0% em 12 meses, ritmo mais rápido desde novembro de 2022, e as de petróleo bruto, 58,7%. No acumulado de janeiro a agosto, o déficit soma ¥ 2,78 trilhões, e o Institute for International Monetary Affairs (IIMA) projeta mais de ¥ 5 trilhões no ano. O país está em déficit anual desde 2021; o recorde foi de ¥ 20,3 trilhões em 2022, no choque de energia da guerra na Ucrânia.
A deterioração decorre principalmente do custo do combustível. O petróleo importado custou cerca de ¥ 116 mil por quilolitro em julho, contra ¥ 70 mil na média de 2025, e os combustíveis minerais passaram de 19,5% das importações na média de 2025 para 22,1% em julho e agosto. Os termos de troca (relação entre preços de exportação e de importação) pioraram: em setembro, os preços de importação subiram 24,5% em ienes, contra 17,9% dos de exportação. Nas importações, a diferença entre a alta em ienes (24,5%) e a alta na moeda dos contratos (17,9%), de 6,6 pontos, corresponde ao efeito da desvalorização do iene sobre a conta.
| Indicador de dependência energética | Valor | Leitura de risco |
|---|---|---|
| Autossuficiência em energia primária (ano fiscal 2024) | 16,3% | Mais de 80% da energia vem de fora; o país absorve choques de preço sem amortecedor interno. |
| Combustíveis fósseis na energia primária | 80,1% | Petróleo responde por 34,8%, carvão por 24,4% e gás por 20,8%. |
| Petróleo bruto importado do Oriente Médio | cerca de 95% | Emirados Árabes (43,7%) e Arábia Saudita (40,0%) concentram o suprimento. |
| Petróleo que passa pelo Estreito de Ormuz | 92% | Ponto único de falha logística; em abril, as importações da região caíram 67%. |
| GNL do Oriente Médio | cerca de 10% | 80% do GNL é comprado em contratos longos, o que reduz a exposição. |
| Reatores nucleares religados desde 2011 | 15 | Nuclear gera 9,4% da eletricidade; a meta para 2040 é de cerca de 20%. |
GNL é gás natural liquefeito. Estoques estratégicos de petróleo: 233 dias de consumo em março de 2026; o governo liberou volumes em março e maio.
Fontes: MOF e Alfândega do Japão (estatísticas de comércio), METI/ANRE (balanço energético do ano fiscal 2024), apresentação do METI de 9/jun/2026, BoJ (índice de preços de importação), IIMA (boletim de 28/set/2026), NucNet. Saldo pelo critério alfandegário.
02Inflação, preços ao produtor e subsídios
A inflação represada pelos subsídios
Os preços ao produtor sobem perto de 7%, mas o índice nacional ao consumidor ainda não reflete essa alta, porque o governo absorve parte da conta de energia.
O índice de preços ao consumidor (CPI) subiu 1,9% em 12 meses até agosto; o núcleo, que exclui alimentos frescos, 1,7%, oito meses seguidos abaixo da meta de 2%. Esse número subestima a pressão de custos: o componente de energia caiu 0,7%, com eletricidade em queda de 2,4% e gasolina de 2,6%, apesar do petróleo mais caro, porque o governo eliminou a sobretaxa provisória da gasolina (¥ 25,1 por litro) em dezembro de 2025, limitou o preço da bomba a cerca de ¥ 170 por litro e subsidia contas de luz e gás. O BoJ calcula um núcleo que exclui os efeitos de políticas públicas (subsídios de energia e gratuidade de ensino e merenda): 2,6%, quase um ponto acima do número oficial.
| 2026 | Jan | Mar | Abr | Mai | Jun | Jul | Ago | Set |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Preços ao produtor (CGPI) | 2,5% | 3,0% | 5,5% | 6,8% | 7,5% | 7,7% | 7,6% | 6,8% |
| Preços de importação em ienes | 0,7% | 8,3% | 21,7% | 26,4% | 30,4% | 29,4% | 25,1% | 24,5% |
| Preços de importação na moeda do contrato | 0,0% | 2,6% | 11,5% | 16,2% | 18,3% | 18,0% | 16,8% | 17,9% |
Variação em 12 meses. CGPI é o índice de preços de bens corporativos do BoJ, equivalente ao índice de preços ao produtor. Fevereiro omitido.
Repasse ao consumidor. O índice de preços ao produtor costuma antecipar o índice ao consumidor. Em Tóquio, prévia do índice nacional, o núcleo saltou de 1,8% em agosto para 2,7% em setembro, e o núcleo sem energia, para 3,0% (cerca de 0,55 ponto vem de efeitos pontuais, segundo o Dai-ichi Life). O subsídio de eletricidade e gás termina com o consumo de outubro, e as contas de novembro sobem entre ¥ 835 e ¥ 1.578 nas dez distribuidoras. O Dai-ichi Life projeta núcleo acima de 3% do fim de 2026 ao primeiro trimestre de 2027. Em sentido oposto, o corte do imposto sobre alimentos de 8% para 1%, previsto para abril de 2027, retiraria cerca de 1,2 ponto do núcleo no ano fiscal de 2027.
Salários e expectativas. A negociação salarial anual (Shunto) fechou em 5,01% em 2026, terceiro ano acima de 5%, e o salário real subiu 1,5% em agosto, oitava alta seguida após 12 quedas em 2025. As famílias esperam inflação mediana de 10% em um ano, segundo pesquisa do BoJ, contra 2,6% esperados pelas empresas no Tankan. A pressão, porém, ainda está concentrada em bens, como itens de consumo doméstico (10,1%) e aparelhos de ar-condicionado (14,0%): serviços sobem apenas 1,2%, e a mediana ponderada do BoJ, que mede o item típico da cesta, está em 1,5%. Inflação concentrada em bens importados depende do câmbio e da energia; o BoJ espera que ela chegue a serviços e salários para considerá-la persistente.
Fontes: Statistics Bureau of Japan; BoJ (CGPI de setembro, divulgado em 13/out/2026; medidas de núcleo; pesquisa de opinião de outubro; Tankan de setembro); Dai-ichi Life Research Institute; Daiwa Institute of Research; Rengo; NRI.
03O iene
A moeda mais desvalorizada em termos reais desde 1965
Intervenções recordes compram tempo, mas o diferencial de juros e os fluxos estruturais seguem contra o iene.
A taxa de câmbio real efetiva, que mede o poder de compra do iene contra uma cesta de moedas descontada a inflação, chegou a 65,2 em julho de 2026 no índice amplo do BIS, o menor nível da série iniciada em 1994; no índice restrito, iniciado em 1964, é o menor desde 1965. Na prática, as importações ficam mais caras em ienes e o poder de compra externo das famílias e empresas japonesas diminui.
Parte do movimento decorre do diferencial de juros: o título americano de 2 anos rende 4,74%, contra 1,90% do japonês, diferença de 285 pontos-base. O juro real (juro básico menos inflação) é negativo no Japão, em cerca de -0,65%, e positivo nos EUA. O carry trade (tomar ienes emprestados a juro baixo para aplicar em moedas de juro maior) segue ativo. Mas o diferencial de 10 anos caiu de cerca de 320 pontos-base em julho de 2024 para 219 hoje, e o iene enfraqueceu mesmo assim. A diferença vem de fluxos estruturais: fundos de investimento compraram ¥ 3,95 trilhões em ações estrangeiras no trimestre até setembro, recorde puxado pelas contas isentas NISA, e o déficit em serviços digitais soma cerca de ¥ 6,6 trilhões por ano.
| Período | Intervenção (compra de ienes) | Contexto |
|---|---|---|
| Set–out/2022 | ¥ 9,19 tri | Primeira intervenção para comprar ienes desde 1998. |
| Abr–mai e jul/2024 | ¥ 15,32 tri | Dólar acima de 160 ienes; recorde anual até então. |
| Abr–mai/2026 | ¥ 11,73 tri | Choque do petróleo após o fechamento de Ormuz. |
| 30/jul a 26/ago/2026 | ¥ 15,40 tri | Recorde mensal; primeira ação conjunta com o Tesouro dos EUA desde 1998. |
Em 2026, as intervenções somam ¥ 27,13 trilhões. As reservas caíram de US$ 1,375 trilhão (março) para US$ 1,178 trilhão (setembro).
Fontes: BIS (índices de câmbio efetivo real), MOF (dados de intervenção e reservas), FRED, MUFG (fluxos de fundos de investimento, out/2026), Fortune. Projeções de câmbio dos bancos na seção 07.
04A curva de juros
Juros longos no maior nível da história do título de 30 anos
O fim do controle da curva expôs os prazos longos ao mercado, à inflação e à oferta de títulos.
O título de 30 anos atingiu 4,17% em 6 de outubro, recorde desde sua criação em 1999; a máxima anterior a 2025 era de 2,97%, em novembro de 2000. O de 40 anos chegou a 4,20%, e o de 10 anos a 3,11% em 7 de outubro, maior nível desde agosto de 1996. Desde o fim do controle da curva de juros (YCC), em março de 2024, quando o BoJ deixou de comprar títulos sem limite para segurar o juro de 10 anos, a parte longa é formada pelo mercado.
Vetores da alta. O primeiro é a normalização monetária: seis altas desde março de 2024, quando o juro saiu de -0,1%, até 1,25%. O segundo é o prêmio de prazo, a remuneração extra exigida para emprestar por prazos longos, que sobe com a incerteza fiscal e de inflação. O terceiro é a transmissão dos juros globais: em setembro, o presidente do BoJ, Kazuo Ueda, atribuiu a alta dos juros longos em grande parte à alta no exterior. Em 19 de outubro, disse que só faria compras emergenciais diante de alta rápida dos juros e de mau funcionamento do mercado.
Fontes: MOF (jgbcme), comunicados de política monetária do BoJ (19/mar/2024 a 18/set/2026), investingLive e FXStreet (declarações de Ueda em 2/set, 13/out e 19/out/2026).
05Quem compra os títulos japoneses
O maior comprador está saindo, e os demais pedem mais juro
O BoJ reduz as compras em cerca de dois terços, as seguradoras hesitam e o Ministério das Finanças encurta a dívida.
O BoJ detém ¥ 470 trilhões em JGBs, 46,7% do estoque em junho de 2026, abaixo do pico de 53,3% em março de 2023. As compras mensais caíram de cerca de ¥ 5,7 trilhões em 2024 para ¥ 2,9 trilhões no início de 2026 e chegam a ¥ 2 trilhões a partir de abril de 2027, nível que o BoJ pretende manter. Quem substitui esse comprador exige rendimento maior, o que faz da retirada do BoJ um dos principais vetores da alta dos juros longos.
| Detentor de JGBs (jun/2026) | Participação | Comportamento recente |
|---|---|---|
| Banco do Japão (BoJ) | 46,7% | Reduz compras; carteira cai gradualmente com vencimentos. |
| Seguradoras | 15,1% | Pararam de comprar 30 e 40 anos em janeiro; venderam em maio; voltaram a comprar a partir de junho, com juros acima de 4%. |
| Investidores estrangeiros | 7,9% | 13,1% incluindo letras de curto prazo; compradores líquidos de títulos longos em julho e agosto. |
| Bancos e demais | restante | Bancos e seguradoras compraram ¥ 5,4 tri em JGBs entre abril e agosto, maior volume desde 2023. |
Participação no estoque de JGBs, sem letras do Tesouro. Fonte: MOF, com base no Flow of Funds do BoJ de 17/set/2026.
| Leilão | Data | Demanda/oferta | Leitura |
|---|---|---|---|
| 20 anos | 20/mai/2025 | 2,50 | Maior cauda desde 1987: o preço mínimo aceito ficou muito abaixo da média. |
| 40 anos | 23/jul/2025 | 2,13 | Menor relação demanda/oferta da amostra 2020–2026. |
| 30 anos | 10/jun/2026 | 2,94 | O mais fraco desde junho de 2025. |
| 30 anos | 8/out/2026 | 3,88 | Demanda volta com rendimento de 4,11%: o comprador existe, mas a preço maior. |
Demanda/oferta (bid-to-cover) é o volume de propostas dividido pelo volume ofertado; quanto menor, mais fraco o leilão. Fonte: MOF.
Seguradoras. As quatro maiores registravam perda não realizada recorde de ¥ 15,13 trilhões em títulos no fim de junho, porque compraram papéis longos com juro baixo e a alta dos juros reduziu o valor dessas carteiras. A Fukoku Life deixou de comprar títulos de 30 e 40 anos em janeiro, e a Taiyo Life planejou vender papéis de cupom baixo.
Resposta do Ministério das Finanças. O MOF encurtou o prazo da dívida: a oferta por leilão de 30 anos caiu de ¥ 900 bilhões para ¥ 600 bilhões, e a de 40 anos de ¥ 700 bilhões para ¥ 300 bilhões. O plano do ano fiscal de 2026 corta a emissão de títulos longos e aumenta a de 2 e 5 anos; títulos de juro flutuante começam a ser emitidos em janeiro de 2027. A medida alivia os prazos longos, mas expõe o orçamento a juros curtos mais altos.
Fontes: BoJ (plano de redução de compras de 16/jun/2026), MOF (resultados de leilões e plano de emissão de 26/dez/2025), JSDA, Japan Times, Insurance Business, Financial Times, MUFG Research (24/set/2026).
06Japão e os Treasuries americanos
O maior credor externo dos EUA está reduzindo posição
Intervenções no câmbio e a volta dos juros em casa diminuem a demanda japonesa por títulos americanos.
A carteira japonesa de Treasuries caiu de US$ 1,239 trilhão em fevereiro para US$ 1,068 trilhão em agosto de 2026, redução de US$ 171 bilhões em seis meses e menor nível desde dezembro de 2024. O Japão segue como maior detentor estrangeiro, mas com 11,4% do total, contra 19,9% em 2015, e o Reino Unido está apenas US$ 59 bilhões atrás. Parte da queda é efeito de preço: o TIC registra valor de mercado, e o Treasury de 10 anos subiu de 4,40% para 5,09% entre abril e outubro.
Além do efeito de preço, houve venda efetiva. Investidores japoneses venderam ¥ 5,34 trilhões líquidos em títulos estrangeiros no ano, maior volume desde 2022, e ¥ 4,74 trilhões só em títulos americanos de janeiro a agosto; os bancos lideram, e as seguradoras responderam por apenas ¥ 289 bilhões. As maiores quedas mensais da carteira (queda de US$ 66,8 bilhões em maio e de US$ 35,6 bilhões em agosto) coincidem com as intervenções, financiadas com reservas em dólar; o MOF não informa quais ativos vendeu. O Citi estimou que turbulência nos JGBs pode provocar até US$ 130 bilhões em vendas de Treasuries por fundos de paridade de risco.
| Canal de transmissão | Evidência | Direção |
|---|---|---|
| Arbitragem com proteção cambial | Treasury de 10 anos com hedge para ienes rende cerca de 2% (BlackRock) a 2,5% (cálculo próprio), contra 2,9% do JGB de 10 anos. Pela estimativa própria, o JGB é mais atrativo desde julho de 2022. | Desestimula a compra japonesa de Treasuries. |
| Prêmio de prazo comum | O FMI estima que uma queda de 10 pontos-base no JGB de 10 anos causada por compras do BoJ reduz os juros externos em cerca de 5 pontos; o BIS encontra um fator comum que explica 83% das variações mensais do prêmio dos títulos públicos sobre swaps nos EUA, Japão, Reino Unido e Alemanha. | Nos dois sentidos. |
| Episódios de estresse | Em 19 e 20/jan/2026, o JGB de 30 anos subiu 30 pontos-base e o Treasury de 10 anos, 6; o secretário Bessent atribuiu parte do movimento ao Japão. | Do Japão para os EUA. |
| Correlação diária | Correlação de 0,23 entre variações diárias dos títulos de 10 anos em 2026; o movimento do dia anterior nos EUA explica mais (0,36 a 0,40). | Predomina dos EUA para o Japão. |
Hedge cambial: proteção contra a variação do câmbio, cujo custo é aproximadamente a diferença entre os juros curtos dos dois países. Correlações e retorno com hedge calculados a partir de dados do MOF e do FRED (cálculo próprio).
Fontes: TIC (slt_table5, ago/2026), MOF (transações semanais em títulos e reservas), Reuters, Financial Times, FMI (WP/25/227), BIS Quarterly Review (set/2026), BlackRock (8/set/2026), Citi (21/jan/2026), Bloomberg.
07Política fiscal e visão dos bancos
O custo da dívida volta a pesar no orçamento
O governo amplia gastos no momento em que o juro usado no orçamento chega ao maior nível em 29 anos.
A primeira-ministra Sanae Takaichi assumiu em 21 de outubro de 2025 com a agenda de “política fiscal proativa responsável” e venceu a eleição de fevereiro de 2026 com 316 das 465 cadeiras para o PLD. O pacote de novembro de 2025 somou ¥ 21,3 trilhões em recursos públicos, e o orçamento do ano fiscal de 2026 é recorde, de ¥ 122,3 trilhões. O governo abandonou a meta anual de superávit primário (resultado das contas antes dos juros) e passou a perseguir a redução gradual da relação dívida/PIB. O corte do imposto sobre alimentos de 8% para 1% por dois anos custa cerca de ¥ 10 trilhões, e Takaichi não descarta financiá-lo com dívida.
| Indicador fiscal | Valor | Leitura de risco |
|---|---|---|
| Dívida bruta/PIB (FMI, 2026) | 202,9% | A maior entre as economias desenvolvidas; o FMI projeta queda para 193,1% em 2031. |
| Serviço da dívida no orçamento do ano fiscal 2026 | ¥ 31,28 tri | Recorde pelo sexto ano; juro previsto de 3,0%. |
| Serviço da dívida pedido para o ano fiscal 2027 | ¥ 36,64 tri | Juro previsto de 3,8%, o maior em 29 anos. |
| Juros projetados pelo MOF para o ano fiscal 2029 | ¥ 21,6 tri | Cerca de 70% acima de 2026; serviço total perto de 30% do gasto. |
| Notas de crédito | A1 / A+ / A | Moody’s, S&P e Fitch, todas estáveis; a S&P cita nova desvalorização do iene como gatilho. |
Fontes: FMI (Artigo IV, abr/2026), MOF (orçamento e apresentação a investidores de ago/2026), Jiji e Kyodo.
| Instituição | Juro do BoJ | Iene por dólar | Argumento |
|---|---|---|---|
| JPMorgan | cerca de 2,25% no fim de 2027 | 164 no fim de 2026 | Fundamentos fracos do iene; o ciclo de altas mais longo entre os bancos. |
| Goldman Sachs | cerca de 1,75% (jan e jul/2027) | 165 em 12 meses | Pressão fiscal limita o aperto; intervenção não resolve. |
| Morgan Stanley | cerca de 1,75% (dez/26 e mar/27) | não divulgado | Altas em dezembro de 2026 e março de 2027. |
| BofA e Nomura | cerca de 1,75% | não divulgado | Altas em dezembro e no primeiro trimestre de 2027. |
| MUFG | até 2,00% no 2T27 | 149 no 3T27 | JGB de 10 anos perto de 3%; mercado não precifica juro terminal acima de 2,5%. |
Trajetória do juro implícita nas datas de alta projetadas por cada banco, em passos de 0,25 ponto (Reuters, 16/out/2026). Projeções de câmbio com datas distintas.
Leitura das projeções. A dispersão é ampla. JPMorgan e Goldman Sachs projetam iene mais fraco, entre 164 e 165 por dólar, enquanto o MUFG vê 149 no 3T27 e a mediana da pesquisa Reuters de agosto aponta 154 em 12 meses. O Goldman estima o iene 25% abaixo do valor justo, mas avalia que a intervenção “não é uma solução sustentável”. O ponto comum é que, sem altas mais rápidas do BoJ ou alívio no preço da energia, a moeda continua pressionada, e com ela a inflação importada.
Fontes: Reuters (factbox de 16/out/2026), MUFG Research (13/out/2026), Goldman Sachs (6/jul/2026), JPMorgan (dez/2025), Nippon.com, Adnkronos (Jiji/Kyodo).
08Propostas de solução e sinais a monitorar
Recomendações de economistas e organismos internacionais
Economistas convergem em três frentes: âncora fiscal crível, juros mais próximos do neutro e segurança energética.
Âncora fiscal crível
Olivier Blanchard defendeu no Conselho de Política Econômica e Fiscal um plano plurianual de melhora do resultado primário. Kenneth Rogoff pediu corte do déficit primário. O FMI recomenda postura fiscal neutra e corte de imposto sobre alimentos temporário, focalizado e sem custo líquido.
Juros mais perto do neutro
O ex-presidente do BoJ Haruhiko Kuroda propôs duas altas por ano até um juro neutro de 1,5% a 1,75%, com aperto fiscal simultâneo. O FMI apoia altas graduais e o monitoramento do funcionamento do mercado de JGBs.
Gestão da dívida
O MOF encurta prazos, reduz emissões de 20 a 40 anos e lança títulos de juro flutuante em 2027. A recompra de títulos longos foi estudada em 2025. O custo é maior sensibilidade do orçamento aos juros curtos.
Segurança energética
O plano energético de 2025 mira 40% a 50% de renováveis e cerca de 20% de nuclear em 2040. A religação de Kashiwazaki-Kariwa, maior usina nuclear do mundo em capacidade, começou em 2026.
Adam Posen, do Peterson Institute, apontou em outubro de 2025 o risco de um “momento Truss”, referência à crise de 2022 no Reino Unido, quando um pacote fiscal sem financiamento derrubou títulos e moeda ao mesmo tempo. O Japan Research Institute defende manter a meta de superávit primário e discutir aumento de impostos para permitir ao BoJ subir juros e estabilizar o iene. No campo de crescimento, o governo planeja ¥ 370 trilhões em investimentos públicos e privados até 2040 e salário mínimo de ¥ 1.500.
| Sinal a monitorar | Nível atual | Por que importa |
|---|---|---|
| Núcleo da inflação após o fim dos subsídios | 1,7% (ago) | Confirma ou não o repasse do PPI; define o ritmo do BoJ. |
| Reunião do BoJ de 30/out e relatório de perspectivas | juro de 1,25% | Mercado projeta próxima alta em dezembro ou no 1T27. |
| JGB de 30 anos e leilões de títulos longos | 4,03% | Nova máxima acima de 4,17% aumentaria a pressão por compras emergenciais do BoJ. |
| Iene por dólar | 158,2 | Perto de 160, nível em que o MOF interveio em 2024 e 2026; nova intervenção tende a envolver venda de reservas em dólar. |
| Saldo comercial e preço do petróleo | -¥ 1,11 tri (ago) | Reabertura de Ormuz reduziria a conta de energia e a pressão sobre o iene. |
| Lei do corte do imposto sobre alimentos | sessão do Parlamento até 12/dez | Financiamento com dívida elevaria o prêmio de prazo. |
Fontes: Adnkronos/Jiji (Blanchard e Rogoff, 26/mar/2026; Posen, 10/out/2025), stock3 (Kuroda, 25/fev/2026), FMI (Artigo IV, 2/abr/2026), Nippon.com (Japan Research Institute), MOF, METI (7º Plano Estratégico de Energia), Dai-ichi Life Research Institute.
Angelo Belitardo
Diretor de investimentos da Hike Capital