Carta do Gestor: Escassez, juros globais e eleição

Resumo do mês

Os principais dados, decisões e conclusões que orientam o posicionamento da Hike.

Setembro foi marcado pela retomada das altas de juros nas principais economias desenvolvidas. O Federal Reserve elevou a taxa básica americana pela primeira vez desde 2023, o Banco Central Europeu promoveu sua segunda alta no ano e o Banco do Japão levou a taxa de juros ao maior nível desde 1995. No mesmo período, a guerra entre Estados Unidos e Irã manteve restrita a passagem pelo Estreito de Ormuz, o petróleo Brent voltou a superar US$ 100 por barril no início de outubro e o rendimento do título de 10 anos do Tesouro americano superou 5,2%, o maior nível desde 2002.

No Brasil, o Banco Central reduziu a Selic para 13,75% ao ano, enquanto os dados fiscais mostraram que o pagamento de juros da dívida pública alcançou 8,86% do PIB em 12 meses. A bolsa subiu 5,03% no mês, com forte valorização das empresas mais endividadas e sensíveis à taxa de juros, em movimento associado à expectativa de queda da Selic e ao cenário eleitoral. O primeiro turno das eleições presidenciais ocorre em 4 de outubro.

  • Juros globais: esperamos uma alta adicional de 0,25 p.p. pelo Fed em dezembro, com encerramento do ciclo em seguida. A combinação de inflação persistente nos EUA, alta de juros no Japão e na Europa e grande volume de emissão de dívida pelos governos tende a manter elevados os juros longos no mundo desenvolvido.
  • Brasil: mantemos viés negativo para a maior parte das ações e para os títulos públicos indexados à inflação (NTN-B). A piora das contas públicas e a maior necessidade de financiamento do governo, somadas ao ciclo global de alta de juros, aumentam a oscilação dos ativos e a tendência de desvalorização do real.
  • Crédito: os prêmios de risco das debêntures incentivadas aumentaram, mas ainda não remuneram adequadamente o aumento da volatilidade. Os portfólios geridos pela Hike estão sem exposição à classe desde o início do ano, quando a gestão realizou a saída integral dessas posições.
  • Momento da exposição a risco: preferimos ampliar a exposição a ativos de risco no Brasil após as eleições. O nível atual de volatilidade não compensa o retorno esperado.
  • Internacional: o momento é atrativo para alocação em bancos e instituições financeiras que apresentam maior consistência de resultados e, entre as exposições dos portfólios, destacamos JPMorgan, Morgan Stanley e Wells Fargo. O setor de transporte marítimo segue como a principal alocação da casa, com Global Ship Lease (GSL) e Danaos Corp. (DAC) como os principais nomes do setor. Em infraestrutura de inteligência artificial, o foco permanece nos principais gargalos para o desenvolvimento da tecnologia: energia, redes e modernização global dos data centers.

Estados Unidos: inflação elevada e Fed volta a subir juros

O banco central americano retomou o ciclo de alta de juros e sinalizou mais um movimento até o fim do ano.

Inflação

O índice de preços de consumo pessoal (PCE), indicador de inflação utilizado como referência pelo Federal Reserve, subiu 0,3% em agosto e acumulou alta de 3,4% em 12 meses. O núcleo do índice, que exclui alimentos e energia, avançou 0,2% no mês e 3,0% em 12 meses. Os números vieram abaixo da expectativa do mercado, que projetava 3,7% e 3,3%, respectivamente, mas permanecem distantes da meta de 2%.

O índice de preços ao consumidor (CPI) de agosto mostra a origem da pressão. A inflação cheia ficou em 3,4% em 12 meses, enquanto o núcleo ficou em 2,4%. A diferença se explica pela energia, que subiu 16,3% em 12 meses, com a gasolina acumulando alta de 27,4%, em consequência direta da guerra no Oriente Médio. A preocupação do Fed é que o aumento dos preços de energia se espalhe para os demais componentes do índice. Quando a inflação se concentra em poucos itens, como combustíveis, ela tende a ser temporária e associada a choques de oferta. Quando passa a atingir a maior parte dos itens, por meio de reajustes de frete, de serviços e de salários, torna-se mais persistente e exige uma resposta mais firme da política monetária.

Mercado de trabalho

O relatório de emprego de setembro, divulgado no início de outubro, registrou a criação de apenas 29 mil vagas, contra expectativa de cerca de 90 mil. Os dados de julho e agosto foram revisados para baixo em 60 mil vagas no total, e a taxa de desemprego subiu de 4,1% para 4,2%. Os salários médios por hora cresceram 3,0% em 12 meses. Os números indicam um mercado de trabalho em desaceleração, o que reduz a pressão salarial sobre a inflação de serviços.

IndicadorPeríodoResultadoAnterior / expectativa
PCE cheio (12 meses)Agosto3,4%Expectativa: 3,7%
Núcleo do PCE (12 meses)Agosto3,0%Expectativa: 3,3%
CPI cheio / núcleo (12 meses)Agosto3,4% / 2,4%Energia: +16,3%
Criação de vagas (payroll)Setembro29 milExpectativa: cerca de 90 mil
Taxa de desempregoSetembro4,2%Anterior: 4,1%
Salário médio por hora (12 meses)Setembro3,0%Revisões jul./ago.: −60 mil vagas

Fontes: BEA, BLS, consenso de mercado compilado por Bloomberg e FXStreet.

Decisão do Federal Reserve

Em relação ao Federal Reserve, o pronunciamento de seu presidente, Kevin Warsh, no simpósio de Jackson Hole, no fim de agosto, apresentou de forma explícita o diagnóstico da autoridade monetária: a atividade permanece sólida, o mercado de trabalho está estável e compatível com o pleno emprego, e a inflação segue acima da meta e distribuída entre os diversos componentes do PCE, com cerca de metade dos itens registrando inflação anualizada superior a 3%. Essa leitura se confirmou na reunião de setembro, quando o comitê elevou a taxa de juros em 0,25 p.p., para o intervalo de 3,75% a 4,00%, por unanimidade. Warsh afirmou que a inflação “está alta demais há tempo demais” e caracterizou o movimento como a retirada de uma dose de estímulo monetário, com o objetivo de tornar as condições financeiras e de crédito mais compatíveis com a meta de inflação.

As projeções dos membros do comitê indicam taxa mediana de 4,1% ao fim de 2026, o que corresponde a mais uma elevação de 0,25 p.p. até dezembro. O presidente do Fed de Nova York, John Williams, afirmou no fim do mês que não há urgência e que “um ajuste adicional pode ser apropriado no fim do ano”. Após o relatório de emprego, a probabilidade atribuída pelo mercado a uma alta em outubro caiu para cerca de 20%, enquanto a de uma alta até dezembro permanece próxima de 75%. Nossa expectativa é de uma alta adicional de 0,25 p.p. em dezembro, com o Fed encerrando o ciclo nesse nível.

Juros globais em alta: Japão, Europa e o Tesouro americano

O movimento é sincronizado entre as principais economias e eleva o custo de capital em todo o mundo.

O Banco do Japão elevou a taxa de juros de 1,00% para 1,25% na reunião de setembro, por 7 votos a 2, e informou que continuará a elevar os juros conforme a evolução da economia e dos preços. O rendimento do título de 10 anos do governo japonês alcançou 3,11% no início de outubro, o maior nível desde 1996, com alta de 1,45 p.p. em 12 meses. Durante décadas, os juros próximos de zero no Japão estimularam investidores japoneses a aplicar recursos no exterior, inclusive em títulos americanos e em mercados emergentes. Com juros mais altos no próprio país, parte desse capital tende a retornar, o que reduz a demanda por títulos de outros países e pressiona os juros globais.

Na Europa, o Banco Central Europeu elevou a taxa de depósito para 2,50% em setembro, segunda alta de 2026, e projeta inflação de 3,0% no ano. A prévia da Eurostat para setembro mostrou inflação de 3,8% na zona do euro, com a energia em alta de 18,8% em 12 meses, contra 14,3% em agosto. O Banco da Inglaterra manteve a taxa em 3,75%, mas três dos nove membros votaram por uma alta. Nos Estados Unidos, o rendimento do título de 10 anos do Tesouro subiu cerca de 0,54 p.p. em setembro e alcançou 5,28% no início de outubro, o maior nível desde 2002. O dólar se valorizou cerca de 2% no mês frente às principais moedas.

Rendimento dos títulos de 10 anos: EUA, Japão e Alemanha (1970 a 2026)

Gráfico do rendimento dos títulos de 10 anos dos EUA, Japão e Alemanha entre 1970 e 2026

Legenda: U.S. = EUA; Japan = Japão; Germany = Alemanha. Períodos: choques inflacionários de oferta (1970 a 1990), grande moderação (1990 a 2019) e restrições de oferta do pós-pandemia (a partir de 2020). Fonte: BlackRock Investment Institute, 2026 Midyear Global Outlook, junho de 2026, com dados da Haver Analytics.

A BlackRock descreve esse movimento como o fim do regime de inflação baixa que vigorou entre 1990 e 2019, quando a globalização reduzia custos de produção. No regime atual, as restrições de oferta (mão de obra, energia, infraestrutura e capital) mantêm a inflação mais persistente, e o grande volume de emissão de dívida pelos governos leva os investidores a exigir um prêmio maior para carregar títulos longos. Com a inflação originada na oferta, ações e títulos passam a cair ao mesmo tempo com mais frequência, e os títulos longos deixam de proteger a carteira nos momentos de queda da bolsa.

Visão do J.P. Morgan para o segundo semestre

No relatório “Mid-year market outlook 2026: the tug of war continues”, de julho, o J.P. Morgan projeta o S&P 500 em 7.800 pontos ao fim de 2026, com crescimento de 29% do lucro por ação, inflação de núcleo global próxima de 3%, altas graduais e desiguais de juros nos países desenvolvidos e manutenção da taxa pelo Fed até o fim do ano, cenário que a alta de setembro alterou. O banco mantém visão favorável ao dólar, sustentada pela liderança americana em inteligência artificial, e projeta abertura moderada dos prêmios de risco de crédito, para 95 pontos-base no grau de investimento americano e 350 pontos-base no high yield (títulos de empresas com maior risco de crédito). Em setembro, o S&P 500 recuou 0,45%, enquanto o Nasdaq subiu 1,86% e renovou sua máxima histórica no mesmo mês, impulsionado pelo setor de semicondutores.

Guerra entre EUA e Irã: o Estreito de Ormuz e o preço da energia

A restrição ao principal corredor de petróleo e gás do mundo mantém o choque de oferta de energia em curso.

O conflito entre Estados Unidos e Irã, iniciado no fim de fevereiro, entrou em seu oitavo mês sem acordo. O memorando de cessar-fogo assinado em junho expirou em agosto sem renovação, e setembro registrou nova escalada. Ao longo do mês, as forças americanas destruíram cinco petroleiros ligados à Guarda Revolucionária iraniana, um ataque com drones interrompeu temporariamente o oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita, que voltou a operar no fim do mês, e os houthis, grupo aliado do Irã no Iêmen, passaram a controlar o Estreito de Bab al-Mandeb, na entrada do Mar Vermelho. No fim do mês, o governo americano rejeitou a proposta iraniana de reabertura do Estreito de Ormuz em sete dias, e, segundo o Wall Street Journal, o presidente Trump indicou a assessores que os bombardeios podem ser retomados após as eleições legislativas americanas de novembro.

O Estreito de Ormuz, por onde passavam cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) comercializados no mundo, opera de forma restrita, com a maior parte das travessias sob escolta militar americana. No início de setembro, o tráfego era de cerca de 10 navios por dia, contra 130 antes da guerra. O custo do seguro contra riscos de guerra chegou a 10% do valor do casco do navio, cerca de 40 vezes o nível anterior ao conflito, de 0,25%. Segundo o relatório de setembro da Agência Internacional de Energia (AIE), mais de 10 milhões de barris por dia de produção no Golfo Pérsico estavam paralisados em agosto, e os estoques globais caíram 507 milhões de barris desde fevereiro. Em setembro, as exportações de petróleo da região se recuperaram para cerca de 80% do nível anterior à guerra, segundo a Kpler.

VariávelNível recenteObservação
Petróleo Brent (contrato futuro)US$ 98 a US$ 104Alta de cerca de 14% em setembro; pico intradiário de US$ 126 em abril
Petróleo WTIUS$ 89 a US$ 93Referência americana
Diesel nos EUAUS$ 6,45/galãoRecorde histórico de US$ 6,53 em setembro
Gás natural na Europa (TTF)€ 76/MWhAlta de 143% em 12 meses; estoques em 71%, contra média de 87%
Frete de petroleiros (VLCC Golfo-China)US$ 1,2 milhão/diaContra cerca de US$ 117 mil por dia antes da guerra

Fontes: Rigzone, Yahoo Finance, AAA, Trading Economics, Baltic Exchange, AIE. Dados de 25/09 a 02/10/2026.

No mercado de gás natural, os efeitos se concentram na Europa e na Ásia, que dependem do GNL importado do Golfo. A QatarEnergy estendeu até novembro e dezembro a suspensão de entregas para clientes na Índia, no Paquistão, em Bangladesh e na Itália, e a Europa entra no inverno com estoques abaixo da média histórica. No início de outubro, os países do G7 anunciaram a liberação de até 100 milhões de barris de reservas estratégicas ao longo de quatro meses, metade em diesel e metade em petróleo, o que levou o Brent a recuar para próximo de US$ 100 por barril.

A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, resumiu a situação da economia global no fim de setembro: o choque negativo de oferta causado pela guerra reduz o crescimento, enquanto o choque positivo de demanda gerado pelos investimentos em inteligência artificial o sustenta. A OCDE projeta crescimento global de 2,9% em 2026 e inflação de 4,1% no G20. Para os países emergentes importadores de energia, o efeito combina inflação mais alta, moedas mais fracas e menor espaço para cortes de juros.

Implicações para a alocação

O choque de energia reforça três pontos da nossa estratégia: a inflação global tende a permanecer acima das metas, o que sustenta juros altos por mais tempo; a volatilidade dos ativos de risco permanece elevada; e empresas com contratos de longo prazo e fluxo de caixa previsível, como as arrendadoras de navios porta-contêineres em que estamos posicionados, se beneficiam da escassez de capacidade de transporte e do redirecionamento de rotas.

Brasil: inflação, Selic e mercado

O Banco Central seguiu reduzindo a Selic, mas a inflação voltou a se espalhar entre os componentes do índice.

Inflação

O IPCA de agosto registrou deflação de 0,32%, a primeira de 2026, e a inflação em 12 meses recuou para 4,22%. O resultado, porém, foi influenciado por um fator temporário: o crédito do Bônus de Itaipu reduziu a conta de luz em 7,63% no mês. Com o fim do bônus, o IPCA-15 de setembro, prévia da inflação oficial, subiu 0,70%, acima da expectativa de 0,53%, e a inflação em 12 meses voltou a 4,47%, a apenas 0,03 p.p. do teto da meta, de 4,5%.

Além da alta do índice, o IPCA-15 mostrou aumento da difusão: os nove grupos de preços pesquisados pelo IBGE registraram alta no mês, e o índice de difusão do IPCA de agosto já havia subido de 49,6% para 54,4%. O índice de difusão mede a proporção dos itens do índice que tiveram aumento de preço. Quando a inflação está concentrada em um único componente, como energia ou alimentos, ela tende a refletir choques temporários e é mais fácil de combater. Quando está espalhada entre os diversos componentes, indica uma inflação mais persistente, que não depende apenas de fatores externos como clima ou choques de oferta. A inflação de serviços subjacentes, que exclui os itens mais voláteis, acumula alta de 4,98% em 12 meses, e os serviços intensivos em mão de obra avançam em ritmo próximo de 7,3% ao ano.

Política monetária

Na reunião de setembro, o Copom reduziu a Selic de 14,00% para 13,75% ao ano, por unanimidade, no quinto corte consecutivo. O comitê não sinalizou os próximos passos, afirmou que o cenário exige “serenidade e cautela” e classificou os riscos como elevados, com assimetria de alta para a inflação, citando expectativas desancoradas, efeitos secundários do petróleo, câmbio, inflação de serviços e política fiscal. As projeções do Copom são de inflação de 5,2% em 2026 e de 3,9% em 2027, ainda acima da meta de 3%. A pesquisa Focus mais recente aponta IPCA de 4,99% em 2026 e Selic de 13,50% ao fim do ano.

IndicadorPeríodoResultadoObservação
IPCA mensal / 12 mesesAgosto−0,32% / 4,22%Efeito temporário do Bônus de Itaipu
IPCA-15 mensal / 12 mesesSetembro0,70% / 4,47%Os nove grupos subiram
Serviços subjacentes (12 meses)Agosto4,98%Intensivos em mão de obra: cerca de 7,3% ao ano
Selic16/0913,75%Corte de 0,25 p.p.; próxima reunião em 04/11
Focus: IPCA 2026 / 202728/094,99% / 4,31%Segunda alta semanal seguida
Focus: Selic fim de 2026 / 202728/0913,50% / 12,00%PIB 2026: 1,86%

Fontes: IBGE, Banco Central do Brasil, XP, InfoMoney.

Mercado

O Ibovespa subiu 5,03% em setembro, o melhor mês desde janeiro, e fechou em 186.340 pontos, com alta de 15,65% no ano. Os investidores estrangeiros aportaram R$ 9,1 bilhões na bolsa no mês, no mercado secundário, o melhor resultado mensal desde março. O dólar fechou setembro em R$ 5,17, praticamente estável, e subiu para R$ 5,22 no início de outubro. Os juros futuros de prazo mais longo recuaram cerca de 0,40 a 0,50 p.p. no mês, em movimento que o mercado associou à possibilidade de mudança de governo em 2027. O índice de volatilidade da bolsa brasileira (VXBR) superou 32 pontos, o maior nível desde sua criação, em março de 2024, o que mostra que o mercado precifica oscilações relevantes em torno do resultado eleitoral.

O peso dos juros nas contas públicas em pleno mês de eleição

O próximo governo encontrará uma parcela da arrecadação já comprometida com o pagamento de juros muito superior à média das economias avançadas e dos emergentes.

Os dados divulgados pelo Banco Central no fim de setembro mostram que o setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 82,1 bilhões em 12 meses até agosto, equivalente a 0,62% do PIB. O resultado primário é a diferença entre receitas e despesas antes do pagamento de juros. Somados os juros nominais, de R$ 1,182 trilhão ou 8,86% do PIB no mesmo período, o déficit nominal alcançou 9,48% do PIB. A dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB, ou R$ 11,1 trilhões.

Nos mesmos 12 meses, a Receita Federal arrecadou R$ 3,11 trilhões em tributos e contribuições federais. Os juros nominais de R$ 1,182 trilhão equivaleram, portanto, a 38,0% de toda a arrecadação federal: de cada R$ 100 arrecadados pela União, cerca de R$ 38 corresponderam ao pagamento de juros da dívida pública. A comparação considera os juros de todo o setor público, que incluem estados, municípios e empresas estatais, frente à arrecadação federal, que concentra a maior parte da receita e da dívida do país.

Na comparação internacional, é necessário usar uma metodologia comum a todos os países. Pelos dados do Fiscal Monitor do FMI para 2025, que consideram os juros líquidos (juros pagos menos juros recebidos pelo governo) e a receita de todas as esferas de governo, os juros brasileiros equivalem a 7,7% do PIB, o maior percentual entre as economias analisadas, e a 19,5% da receita total do governo geral. A média das economias avançadas é de 5,9% da receita, e a média dos emergentes, de 8,4%.

Gráficos de barras dos juros líquidos sobre a receita do governo e sobre o PIB por país em 2025, com o Brasil em destaque
Juros líquidos calculados como a diferença entre o resultado primário e o resultado nominal do governo geral, em percentual do PIB e da receita, em 2025. Fonte: FMI, Fiscal Monitor (abril de 2026). Elaboração: Hike Capital.

Por que isso importa para os investimentos

Quando uma parcela elevada da arrecadação é destinada a juros, o governo tem menos espaço para absorver choques sem emitir mais dívida. Para financiar o déficit, o Tesouro precisa vender mais títulos, e se não há demanda suficiente, ele paga juros mais altos ou concentra as emissões em títulos de prazo curto e indexados à Selic. Esse mecanismo afeta diretamente o preço das NTN-Bs, o custo de capital das empresas e o câmbio.

A série histórica mostra que o peso dos juros se aproximou do patamar de 2015 (8,4% do PIB e 22,8% da receita), ano de recessão e de perda do grau de investimento. Os juros líquidos passaram de 4,1% do PIB em 2020 para 7,7% em 2025, e a parcela da receita destinada a juros subiu de 11,9% para 19,5% no mesmo período.

Gráfico da série histórica do peso dos juros sobre o PIB e sobre a arrecadação no Brasil de 2005 a 2026
*2026: projeção do FMI. Fonte: FMI, Fiscal Monitor (abril de 2026). Elaboração: Hike Capital. Pelo critério do Banco Central, que inclui o resultado das operações de swap cambial, os juros nominais do setor público consolidado alcançaram 8,86% do PIB em 12 meses até agosto de 2026.

O projeto de Orçamento de 2027, enviado ao Congresso no fim de agosto, estabelece meta de superávit primário de 0,5% do PIB, mas o cumprimento depende de R$ 64,7 bilhões em deduções autorizadas por emendas constitucionais, leis complementares e decisão do STF sobre precatórios. Sem essas deduções, o superávit seria de apenas 0,13% do PIB. As despesas obrigatórias representam 91,7% do total, o que deixa R$ 38,7 bilhões para despesas discricionárias. O mercado também mede o risco fiscal pelo comportamento dos ativos: o J.P. Morgan acompanha a proporção dos pregões em que ações, títulos públicos e moeda caem ao mesmo tempo, e, até outubro de 2025, o Brasil registrou esse movimento em cerca de um quarto dos pregões, contra cerca de 8% nos EUA.

Pregões com queda simultânea de ações, títulos e moeda

Gráfico da proporção de pregões com queda simultânea de ações, títulos e moeda nos EUA, Reino Unido e Brasil

Média móvel de 3 anos (%). United States = EUA; United Kingdom = Reino Unido; Brazil = Brasil. Fonte: J.P. Morgan Private Bank, Outlook 2026, com dados da Bloomberg até 31/10/2025.

Eleição presidencial

As pesquisas mais recentes indicam disputa equilibrada e provável segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Pesquisa1º turno*2º turno
Datafolha (01/10)45% x 40%48% x 45%
AtlasIntel (29/09)46,2% x 43,1%50% x 50%
Quaest (28/09)39% x 34%42% x 42%

Lula x Flávio Bolsonaro. *1º turno: Datafolha e AtlasIntel em votos válidos; Quaest em votos estimulados. 2º turno: Datafolha e Quaest em votos totais; AtlasIntel em votos válidos. Fontes: Datafolha, AtlasIntel, Quaest, via Gazeta do Povo.

Os cenários de bancos estrangeiros mostram a distância entre os resultados possíveis. O Morgan Stanley projeta o Ibovespa entre 130 mil pontos, com Selic de 15,50% e dólar a R$ 6,00, e 250 mil pontos, com Selic de 9,75% e dólar a R$ 4,50, conforme a credibilidade da trajetória da dívida após a eleição.

Renda fixa: por que ainda não é o momento para títulos IPCA+

O preço das NTN-Bs depende da saúde das contas públicas e do equilíbrio entre a oferta de títulos e a demanda dos investidores.

As NTN-Bs são títulos públicos que pagam a variação do IPCA mais uma taxa de juros real definida na compra. Quando essa taxa sobe, o preço do título cai, e quanto mais longo o prazo, maior a perda. Os títulos de prazo longo são os mais sensíveis à percepção de risco fiscal, porque o investidor precisa confiar na capacidade de pagamento do governo por muitos anos.

O equilíbrio entre oferta e demanda desses títulos está desfavorável: o governo precisa financiar um déficit nominal de 9,48% do PIB, enquanto a demanda dos investidores institucionais por títulos longos permanece fraca. A emissão bruta de NTN-Bs no primeiro semestre de 2026 foi de R$ 114 bilhões, contra R$ 200 bilhões no mesmo período de 2025, o menor volume em dez anos. No principal leilão de agosto, realizado após um vencimento recorde de cerca de R$ 260 bilhões, 64% do volume se concentrou no vencimento de 2031, o mais curto ofertado. Para compensar, o Tesouro ampliou a emissão de títulos indexados à Selic, que passaram a representar 52,7% da dívida pública federal em agosto, o maior percentual da série. Essa estrutura de endividamento, com maior participação de títulos indexados à Selic, mantém o custo da dívida diretamente atrelado a uma taxa básica ainda elevada. Como o estoque da dívida continua crescendo em razão do déficit nominal, o pagamento de juros tende a não recuar na mesma proporção dos cortes da Selic, o que aumenta a dependência de nova dívida para cobrir o déficit das contas públicas. Esse comportamento retira atratividade das NTN-Bs e justifica a baixa demanda dos investidores por esses títulos, enquanto a necessidade de financiamento do governo, e portanto a oferta potencial de novos títulos, segue em trajetória de alta. As taxas reais das NTN-Bs permanecem entre 7,0% e 7,6% ao ano, níveis historicamente elevados, que refletem o prêmio exigido pelos investidores para assumir o risco fiscal.

A BlackRock chega a uma conclusão semelhante para os países desenvolvidos. O relatório indica preferência por obter renda em títulos de prazo curto e médio, que oferecem mais retorno por unidade de risco, e evitar títulos longos, porque a inflação persistente e o grande volume de emissão de dívida fazem os investidores exigirem um prêmio maior para carregar esses papéis.

Renda ajustada ao risco por classe de renda fixa

Gráfico da renda ajustada ao risco de classes de renda fixa entre 2017 e 2026

Rendimento dividido pela volatilidade. Short-term U.S. Treasuries = títulos americanos curtos; Private credit = crédito privado; Local-currency EM debt = dívida emergente em moeda local; Long-term U.S. Treasuries = títulos americanos longos. Fonte: BlackRock Investment Institute, junho de 2026.
Tesouro IPCA+Taxa real (02/10)
20327,60%
20377,52%
20457,18%
20507,06%
20607,08%

Fonte: Tesouro Direto, via EuQueroInvestir.

Nossa leitura

Taxas reais acima de 7% são atrativas em termos históricos, mas o risco de novas altas permanece enquanto a oferta de títulos superar a demanda e a trajetória da dívida não for estabilizada. Preferimos aguardar maior clareza fiscal após a eleição.

Debêntures incentivadas

As debêntures incentivadas, títulos de empresas de infraestrutura isentos de imposto de renda para pessoas físicas, passaram em 2026 por um ajuste de preços. O processo começou em março, com as recuperações extrajudiciais da Raízen, com cerca de R$ 65 bilhões em dívidas, e do GPA, e com resgates nos fundos da classe. O spread mediano, que é o prêmio pago acima da NTN-B de prazo equivalente, alcançou 0,35 p.p. no fim de setembro, com abertura de cerca de 1 p.p. desde fevereiro, e a emissão de agosto foi de apenas R$ 170 milhões, o menor volume mensal desde janeiro de 2019. No início do ano, a gestão da Hike realizou a saída integral da classe nos portfólios geridos. Apesar da abertura recente, os spreads ainda não compensam o aumento da volatilidade: o potencial de retorno adicional é pequeno em relação à oscilação de preços e ao risco de crédito de cada emissor.

Renda variável Brasil: a antecipação da queda de juros

As empresas mais endividadas lideraram a alta da bolsa, mas mantemos cautela com a maior parte do mercado.

Entre as maiores altas de setembro estiveram empresas de transporte, locação e logística com elevado endividamento. As ações da Vamos subiram 44,3% no mês, as da Localiza, 18,4%, e as da Motiva, 10,7%. Essas empresas precisam de muito capital para comprar veículos e equipamentos ou investir em concessões, financiado em grande parte com dívida indexada ao CDI. Por isso, cada redução na taxa de juros diminui a despesa financeira e eleva o lucro de forma mais intensa do que nas demais empresas. O Goldman Sachs destaca que sua cesta de ações sensíveis a juros, que inclui Localiza, Ecorodovias, Movida e Simpar, já rendeu o triplo do Ibovespa em ciclos anteriores de queda da Selic.

O movimento reflete duas expectativas: a continuidade dos cortes da Selic e a possibilidade de que o resultado eleitoral traga um ajuste fiscal capaz de reduzir os prêmios de risco e os juros de longo prazo. Trata-se, portanto, de uma aposta antecipada em um dos cenários possíveis. Caso a eleição produza um resultado percebido como desfavorável para as contas públicas, essas mesmas empresas tendem a registrar as maiores quedas, porque a alta já incorporada nos preços é elevada.

Mantemos viés negativo para a maior parte das ações brasileiras. A deterioração dos resultados fiscais e a maior necessidade de endividamento do governo, combinadas com o ciclo de alta de juros no Japão, nos EUA e na Europa, aumentam a oscilação dos ativos domésticos e a tendência de desvalorização do real. Com juros mais altos nos países desenvolvidos, o diferencial de juros que atrai capital estrangeiro para o Brasil diminui, o que pressiona o câmbio e eleva o custo de capital das empresas.

InstituiçãoVisão para o BrasilProjeção para o Ibovespa
J.P. Morgan (11/08)Rebaixou de acima do peso para neutro: fim do ciclo de cortes, desaceleração e piora do crédito185 mil pontos ao fim de 2026
Morgan Stanley (27/08)Levemente acima do peso, com preferência por exportadoras e financeiras215 mil pontos em meados de 2027; faixa de 130 mil a 250 mil

Fontes: Seu Dinheiro, Bloomberg Línea, Economic News Brasil.

Volatilidade e momento de exposição

A BlackRock descreve o ambiente atual como de “polifurcação”: em vez de um cenário-base com incerteza ao redor, existem cenários muito distantes entre si, e os mercados tendem a se ajustar de forma brusca quando as evidências apontam para um deles. O relatório cita eleições como exemplo de evento binário que não se encaixa nas classes de ativos tradicionais. A eleição brasileira é um caso típico, e a faixa de 130 mil a 250 mil pontos projetada pelo Morgan Stanley ilustra essa distância. Com o índice de volatilidade da bolsa em máxima histórica, preferimos ampliar a exposição a ativos de risco após a definição eleitoral, quando a relação entre retorno esperado e oscilação de preços deve se tornar mais favorável.

Estratégia de alocação: escassez agora, abundância depois

Os principais temas do relatório semestral da BlackRock e como eles influenciam as decisões de investimento.

O 2026 Midyear Global Outlook da BlackRock, elaborado a partir do fórum de investimentos realizado em junho, descreve a economia global como um regime de escassez: faltam mão de obra, energia, infraestrutura, capital, materiais e espaço fiscal, entendido como a capacidade dos governos de gastar sem comprometer a sustentabilidade da dívida. Duas variáveis aprofundam essa escassez. A primeira é a busca de governos e empresas por segurança e autonomia nas cadeias de produção, que encarece a produção. A segunda é a construção da infraestrutura de inteligência artificial, que demanda energia, data centers, chips e capital em volume superior à oferta disponível.

A abundância seria a possibilidade de a inteligência artificial elevar de forma permanente o crescimento americano acima da tendência histórica de crescimento de 1,9% ao ano do PIB real per capita, observada desde 1870. Para chegar a esse resultado, porém, é necessário investir antes, o que intensifica a escassez no curto prazo e mantém pressionados a inflação e os juros. A BlackRock organiza essa leitura em três temas de investimento.

TemaLeitura da BlackRockDecisão de investimento
Escassez gerada pela IANão é necessário saber qual modelo de IA vencerá para saber que todos precisarão de energia, chips, memória e data centers. Os retornos dentro da cadeia de IA estão cada vez mais dispersos.Acima do peso em ações americanas, com foco nos gargalos: energia, redes de transmissão, chips e data centers.
Renda durávelOs juros mais altos voltaram a oferecer renda, mas os títulos longos sofrem com inflação persistente e com o prêmio exigido pela grande emissão de dívida.Preferência por prazos curtos e médios, crédito com fluxo de caixa claro e dívida emergente em moeda local. Abaixo do peso em títulos longos dos EUA e do Japão.
Além dos rótulosA infraestrutura está ligada ao mesmo tempo à demanda da IA, à segurança energética e à inflação, e aparece em ações, dívida e mercados privados.Partir do tema e do risco desejados e escolher o veículo depois. Uso de infraestrutura, hedge funds e mercados privados.

Fonte: BlackRock Investment Institute, 2026 Midyear Global Outlook, junho de 2026.

A análise de crédito do relatório reforça a metodologia que aplicamos nas diligências da Hike. Um título de dívida, um empréstimo ou um financiamento de infraestrutura podem financiar o mesmo tipo de ativo; o que muda é a liquidez e os direitos legais. A análise deve se concentrar no que garante a dívida: fluxo de caixa recorrente, prazos de vencimento, garantias, documentação, proteções ao credor e valor de recuperação. A BlackRock alerta que spreads apertados deixam pouco espaço para erro, argumento que também fundamenta nossa posição em debêntures incentivadas.

A busca por segurança energética

Gráfico do desempenho de turbinas a gás, mineradoras de cobre e energia limpa frente ao MSCI World entre 2025 e 2026

Índice, base 2025 = 100. Gas turbines & fuel cells = turbinas a gás e células de combustível; Copper miners = mineradoras de cobre; Clean energy = energia limpa; MSCI World = índice global. Fonte: BlackRock Investment Institute, junho de 2026.

Robótica e IA física superam o índice global

Gráfico do desempenho relativo de robótica e IA, tecnologias disruptivas e exploração espacial frente ao MSCI World entre 2022 e 2026

Desempenho relativo ao MSCI World, base nov/2022 = 100. Robotics & AI = robótica e IA; Disruptive technologies = tecnologias disruptivas; Space exploration = exploração espacial. Fonte: BlackRock Investment Institute, junho de 2026.

Tendências de consumo e de investimento

IA física, segurança energética e o novo comportamento de preços das empresas e das famílias.

IA física: a próxima fronteira

A BlackRock considera a IA física a próxima etapa da inteligência artificial. O termo se refere à passagem de modelos que processam texto, códigos e imagens para sistemas que percebem, decidem e agem no mundo real, como robôs, drones e veículos autônomos. A matéria-prima desses sistemas deixa de ser a linguagem e passa a ser composta por dados captados por sensores em três dimensões. O relatório prefere a camada que viabiliza essa tecnologia (equipamentos, testes, validação de segurança, energia e sensores), onde os preços ainda não se afastaram dos fundamentos.

A Innodata (Nasdaq: INOD), empresa americana de engenharia de dados para inteligência artificial, ilustra essa tendência. No fim de setembro, a companhia inaugurou em Nova Jersey um laboratório de captura de movimento desenvolvido com a Vicon, que registra movimentos humanos em três dimensões com precisão submilimétrica para treinar robôs humanoides e industriais. Ao contrário dos modelos de linguagem, treinados com o volume de texto disponível na internet, os robôs dependem de dados produzidos fisicamente, uma interação de cada vez, o que torna esse tipo de dado escasso. No segundo trimestre, a receita da empresa cresceu 58%, para US$ 92,1 milhões, e a companhia mantém projeção de crescimento de pelo menos 40% em 2026. O consenso dos quatro analistas que acompanham a ação é de compra, com preço-alvo médio de US$ 122,75, contra cotação de US$ 70,07 no início de outubro. A Wedbush elevou seu preço-alvo três vezes entre maio e junho, de US$ 75 para US$ 120, e a BWS Financial classifica a ação como sua principal escolha, com alvo de US$ 140. Por se tratar de empresa de menor porte e alta volatilidade, acompanhamos a Innodata como referência do tema, sem posição nos portfólios.

O consumidor e o comportamento de preços

O relatório anual do J.P. Morgan Private Bank (“Promise and Pressure”) mostra que o balanço financeiro das famílias nos países desenvolvidos sustenta o consumo. Nos EUA, o patrimônio líquido das famílias supera US$ 175 trilhões, mais de 50% acima do nível anterior à pandemia; os saldos em caixa estão 50% maiores, os fundos de money market dobraram de tamanho e existem US$ 17 trilhões em patrimônio imobiliário que podem ser convertidos em crédito. Essa base financeira sustenta a demanda, mas também contribui para manter a inflação pressionada.

O banco também identifica uma mudança no comportamento das empresas: os reajustes de preços se tornaram mais frequentes, com redes de supermercado na Noruega que adotam tecnologia capaz de alterar preços até 100 vezes por dia e empresas de entrega de encomendas que revisam a taxa de combustível semanalmente. As expectativas de inflação estão cerca de 0,40 p.p. acima do nível anterior à pandemia. No mercado imobiliário americano, o custo mensal de compra de um imóvel é cerca de 50% superior ao do aluguel, o que favorece a locação.

América do Sul e infraestrutura

O J.P. Morgan destaca que a América do Sul responde por 40% da produção mundial de cobre e que as ações latino-americanas são negociadas a cerca de 10 vezes o lucro projetado, no 30º percentil de sua própria história, enquanto os mercados desenvolvidos e a Ásia emergente estão no 90º percentil. A BlackRock rebaixou as ações de emergentes em geral para neutro, mas manteve a preferência pela América Latina, onde a demanda gerada pela inteligência artificial impulsiona investimentos em infraestrutura. O J.P. Morgan observa ainda que a infraestrutura entregou historicamente retornos de 8% a 12% ao ano em diferentes cenários de inflação, mas cerca de 80% dos family offices pesquisados pelo banco não têm exposição à classe.

Síntese para a alocação

Os dois relatórios convergem em quatro pontos: juros mais altos por mais tempo nos países desenvolvidos; preferência por renda em prazos curtos em vez de títulos longos; seletividade em crédito, com foco no fluxo de caixa e nas garantias; e exposição às tendências estruturais por meio dos gargalos (energia, infraestrutura, transporte e dados), em vez da tentativa de identificar antecipadamente as empresas vencedoras da inteligência artificial.

Offshore: arrendadoras de navios e bancos americanos

Fluxo de caixa contratado, baixo endividamento e dividendos sustentam as principais posições dos portfólios.

Global Ship Lease (GSL) e Danaos (DAC)

As ações da Global Ship Lease e da Danaos operam próximas das máximas, indiferentes ao ciclo global de alta de juros, à escalada do conflito no Oriente Médio e à piora da inflação. A GSL era negociada a US$ 45,44 no início de outubro, cerca de 2% abaixo da máxima de 52 semanas, com alta de cerca de 49% em 12 meses, enquanto a Danaos opera na máxima de 52 semanas e no maior nível desde sua reestruturação financeira de 2019, com alta de cerca de 75% no ano. As duas empresas são proprietárias de navios porta-contêineres que alugam a grandes companhias de navegação por meio de contratos de longo prazo, conhecidos como afretamento. Nesse modelo, a receita está definida em contrato por vários anos, o que torna o fluxo de caixa previsível e pouco dependente das oscilações de curto prazo do frete.

O ambiente de escassez descrito pela BlackRock favorece esse modelo de negócio: o desvio de rotas pelo Cabo da Boa Esperança absorve entre 5% e 7% da capacidade da frota global, o congestionamento portuário retém outros 8% a 11%, a frota ociosa está em apenas 0,6% a 0,7% do total e o índice de afretamento Harpex permanece estável em patamar elevado. A GSL possui US$ 3,2 bilhões em receitas contratadas, com prazo médio de 3,3 anos e cobertura de 100% da frota em 2026 e de 90% em 2027. A Danaos possui carteira recorde de US$ 4,6 bilhões, com prazo médio de 4,7 anos e cobertura de 93% em 2027 e de 79% em 2028.

As duas empresas reduziram de forma expressiva o endividamento na última década. A dívida líquida da GSL equivale a 0,4 vez o EBITDA, contra 8,4 vezes em 2018, e a da Danaos, a 0,3 vez, contra 7,4 vezes em 2017. O EBITDA mede a geração de caixa operacional antes de juros, impostos e depreciação, e a relação entre dívida líquida e EBITDA indica quantos anos de geração de caixa seriam necessários para quitar a dívida. Ambas retomaram encomendas de novos navios, mas com a maior parte da frota nova já contratada por prazos longos e financiada com caixa próprio e dívida a custo competitivo: os 15 navios encomendados pela GSL têm contratos de 7,1 anos em média, e 22 das 28 embarcações encomendadas pela Danaos já possuem afretamento de longo prazo.

IndicadorGSLDAC
Cotação (01 e 02/10)US$ 45,44US$ 164,33
Receita contratada / prazo médioUS$ 3,2 bi / 3,3 anosUS$ 4,6 bi / 4,7 anos
Dívida líquida / EBITDA0,4x0,3x
Preço / lucro (últimos 12 meses)4,4x5,6x
Dividendos por ação (anualizados)US$ 2,50 (5,5%)US$ 9,00* (5,5%)

Fontes: relatórios trimestrais das companhias (2T26), apresentações a investidores, Stock Analysis. Rendimento de dividendos calculado sobre a cotação indicada. *DAC: dividendo regular de US$ 1,00 por trimestre (US$ 4,00 ao ano) mais dividendo extraordinário de US$ 5,00, anunciado em 01/10/2026, com pagamento em 22/10.

Os principais riscos estão no volume de encomendas de novos navios no setor, equivalente a cerca de 38% a 40% da frota atual, com entregas concentradas em 2028, e na normalização das rotas pelo Mar Vermelho, já iniciada por parte das companhias de navegação entre setembro e outubro. Os contratos de longo prazo e o baixo endividamento reduzem a exposição das duas empresas a esse cenário, razão pela qual seguem como as principais exposições dos nossos portfólios, consideradas as mais defensivas.

Bancos americanos: Morgan Stanley, JPMorgan e Wells Fargo

As ações do setor financeiro americano estiveram entre as maiores quedas do S&P 500 em setembro, em movimento associado à dúvida sobre a repetição dos resultados recordes de negociação de ações do segundo trimestre e à migração de recursos para o setor de tecnologia. Com a queda, as ações do JPMorgan operam cerca de 9% abaixo da máxima histórica, registrada em agosto, as do Morgan Stanley, cerca de 17% abaixo da máxima de julho, e as do Wells Fargo, cerca de 16,5% abaixo da máxima de janeiro. Entendemos que a correção abriu um momento atrativo para alocação.

No segundo trimestre, o JPMorgan registrou retorno sobre o patrimônio tangível (ROTCE) de 23%, excluídos efeitos não recorrentes, e o Morgan Stanley alcançou receita recorde de US$ 21,3 bilhões, com ROTCE de 26,6%. O ROTCE mede o lucro gerado em relação ao capital próprio, excluídos ativos intangíveis, e indica a eficiência do banco na geração de resultado. O Wells Fargo, livre desde 2025 do limite de ativos imposto pelo Fed, ampliou sua carteira de crédito em 12% e elevou o lucro por ação em 25%. Em setembro, o JPMorgan sinalizou crescimento entre 15% e 19% nas receitas de banco de investimento e de negociação no terceiro trimestre, em relação ao mesmo período de 2025.

Além dos resultados, três variáveis sustentam a tese de investimento. A primeira é a curva de juros mais inclinada, com o título de 10 anos rendendo cerca de 0,46 p.p. acima do título de 2 anos, o que amplia a diferença entre o custo de captação e o retorno dos empréstimos. A segunda é a flexibilização das regras de capital: a nova proposta de Basileia III reduz em até 4,8% o capital principal exigido dos maiores bancos, e a nova regra de alavancagem entrou em vigor em abril, o que libera recursos para dividendos e recompras de ações. Após os testes de estresse de junho, o JPMorgan aprovou programa de recompra de US$ 50 bilhões, e o Morgan Stanley, de US$ 20 bilhões. A terceira é a retomada das operações de fusões, aquisições e aberturas de capital.

IndicadorJPMorganMorgan StanleyWells Fargo
Cotação (01 e 02/10)US$ 332,31US$ 190,31US$ 80,46
Distância da máxima histórica−9%−17%−16,5%
Preço / lucro projetado13,7x14,6x10,8x
ROTCE no 2T2623% (recorrente)26,6%17,7%
Rendimento de dividendos2,0%2,4%2,5%
Preço-alvo médio dos analistasUS$ 375,81US$ 235,81US$ 100,54
Divulgação do 3T2613/1014/1013/10

Fontes: relatórios de resultados do 2T26, Stock Analysis, Companies Market Cap, Holland & Knight, Federal Reserve.

Riscos monitorados

Normalização das receitas de negociação após um primeiro semestre excepcional, piora da qualidade do crédito em caso de desaceleração mais forte da economia americana e uma alta de juros superior à esperada, que poderia reduzir a atividade de fusões, aquisições e emissões.

Posicionamento

Síntese das decisões de alocação da Hike para o período.

ClassePosiçãoFundamento
Renda fixa pós-fixadaPreferênciaSelic de 13,75% oferece retorno elevado com baixa oscilação durante o período eleitoral.
Títulos indexados à inflação (NTN-B)Sem exposiçãoOferta elevada de títulos, demanda institucional fraca e dependência da trajetória fiscal. Reavaliação após a eleição.
Debêntures incentivadasSem exposiçãoSaída integral realizada nos portfólios geridos no início do ano. Spreads ainda não compensam a volatilidade e o risco de crédito.
Ações BrasilCautelaViés negativo para a maior parte das ações. Ampliação do risco somente após a definição eleitoral.
DólarExposição como proteçãoCiclo global de alta de juros e piora fiscal aumentam a tendência de desvalorização do real.
Ações internacionaisExposição seletivaTransporte marítimo como principal alocação (GSL e DAC); bancos com maior consistência de resultados (JPMorgan, Morgan Stanley e Wells Fargo); infraestrutura de IA com foco em energia, redes e data centers.

Conclusão

O cenário de setembro confirma a leitura que orienta nossa estratégia ao longo de 2026. As principais economias desenvolvidas voltaram a subir juros diante de uma inflação mais persistente, o choque de energia causado pela guerra no Oriente Médio não tem prazo para terminar e o Brasil chega à eleição com juros da dívida pública equivalentes a 38% da arrecadação federal em 12 meses. Nesse ambiente, a disciplina na alocação é mais importante do que a tentativa de antecipar o resultado eleitoral.

Mantemos a preferência por ativos com fluxo de caixa contratado, baixo endividamento e geração de renda, tanto no Brasil quanto no exterior, e aguardamos a definição eleitoral para reavaliar a exposição a ações brasileiras e a títulos de prazo longo. Seguiremos acompanhando os dados e comunicaremos qualquer mudança relevante de posicionamento.

Agenda

DataEvento
04/10Primeiro turno das eleições no Brasil; reunião da OPEP+ sobre as cotas de novembro
13/10Resultados do JPMorgan e do Wells Fargo no terceiro trimestre
14/10Resultado do Morgan Stanley; CPI de setembro nos EUA
25/10Segundo turno das eleições no Brasil
28/10Decisão de juros do Federal Reserve
03/11Eleições legislativas nos EUA
04/11Decisão de juros do Copom
09/12Decisão de juros do Federal Reserve

Fontes

  • BEA. Personal Income and Outlays, August 2026 (30/09/2026). bea.gov
  • BLS. Employment Situation, September 2026 (02/10/2026); Consumer Price Index, August 2026 (11/09/2026). bls.gov
  • Federal Reserve. Comunicado, projeções econômicas e coletiva de imprensa do FOMC de 16/09/2026. federalreserve.gov
  • Bank of Japan. Statement on Monetary Policy, 18/09/2026. boj.or.jp · ECB e Bank of England, decisões de setembro de 2026.
  • U.S. Department of the Treasury. Daily Treasury Par Yield Curve Rates. home.treasury.gov · FRED, St. Louis Fed.
  • J.P. Morgan Global Research. Mid-year market outlook 2026: the tug of war continues (01/07/2026).
  • J.P. Morgan Private Bank. Outlook 2026: Promise and Pressure.
  • BlackRock Investment Institute. 2026 Midyear Global Outlook: scarcity vs. abundance (junho de 2026).
  • Agência Internacional de Energia. Oil Market Report, setembro de 2026. iea.org · OCDE, Interim Economic Outlook (23/09/2026).
  • CBS News, Al Jazeera, Fortune, gCaptain, Seatrade Maritime, Rigzone, Oilprice, The National. Cobertura da guerra EUA-Irã, set./out. 2026.
  • IBGE. IPCA de agosto (11/09/2026) e IPCA-15 de setembro (25/09/2026). ibge.gov.br
  • Banco Central do Brasil. Decisão do Copom (16/09/2026), Ata (22/09/2026), Estatísticas Fiscais (30/09/2026), Boletim Focus (28/09/2026).
  • Tesouro Nacional. Resultado do Tesouro Nacional, agosto de 2026; Relatório Mensal da Dívida. Projeto de Lei Orçamentária de 2027.
  • FMI. Fiscal Monitor, abril de 2026 (base de dados DataMapper).
  • Receita Federal. Arrecadação das receitas federais, agosto de 2026 (22/09/2026) e consolidado de 2025. Cálculo de 12 meses: Hike Capital.
  • Datafolha (01/10/2026), AtlasIntel (29/09/2026) e Quaest (28/09/2026), via Gazeta do Povo.
  • InfoMoney, Money Times, Seu Dinheiro, Brazil Journal, NeoFeed, Bloomberg Línea, Poder360, CNN Brasil, BPMoney/Vinland Capital.
  • Global Ship Lease e Danaos Corporation. Resultados do 2T26 e apresentações a investidores (agosto de 2026); Danaos, comunicado de dividendos (01/10/2026).
  • JPMorgan Chase, Morgan Stanley e Wells Fargo. Resultados do 2T26 (julho de 2026). Holland & Knight, propostas de regras de capital (junho de 2026).
  • Innodata. Resultados do 2T26 (SEC, Form 8-K) e comunicado de 30/09/2026. The Robot Report, MarketScreener, Benzinga.
  • Harper Petersen (Harpex), Drewry, Baltic Exchange, Stock Analysis, Companies Market Cap.

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Foto de Angelo Belitardo

Angelo Belitardo

Diretor de investimentos da Hike Capital

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