Brasil
A prévia de inflação divulgado pelo IPCA-15 acelerou de 0,20% em janeiro para 0,84% em fevereiro, acima do consenso de 0,57%, ainda que, no acumulado em 12 meses, tenha desacelerado para 4,10% ante 4,50% em janeiro, permanecendo dentro do limite superior aceito pelo Banco Central. O destaque do mês foi no componente de Educação, com alta de 5,20% e impacto de 0,32 p.p., refletindo o reajuste típico de mensalidades no início do ano, com efeito sazonal no índice. Em paralelo, Transportes avançou 1,72% e adicionou 0,35 p.p., com passagens aéreas subindo 11,64% e combustíveis em 1,38% (etanol 2,51%, gasolina 1,30% e diesel 0,44%). A leitura qualitativa ficou mais construtiva quando olhamos o comportamento geral dos componentes dentro do índice: a difusão do IPCA-15 recuou para próximo de 63%, abaixo dos níveis de 64% no mês anterior, sugerindo desaceleração na propagação das altas.
Do ponto de vista da política monetária, a comunicação recente do Banco Central reforçou um viés de maior probabilidade de queda de juros a frente. A leitura do mercado foi de que houve sinalização positiva na ATA ao retirar uma expressão que indicava manutenção de juros restritivos por tempo prolongado, ao mesmo tempo em que a autoridade segue dependente de dados para calibrar o ritmo do ciclo de queda na Selic.
No eixo geopolítico e de comércio exterior, ganhou relevância o canal Irã e Brasil, sobretudo por seu potencial de transmissão de inflação para o segmento de alimentos, transporte e logística. Em 2025, as exportações brasileiras para o Irã foram fortemente concentradas em grãos, com destaque para milho, e, do lado das importações, o Brasil comprou principalmente fertilizantes nitrogenados (ureia), além de itens menores como frutas e castanhas. Esse ponto é particularmente sensível porque, em um choque de guerra no Golfo/Ormuz, os impactos não se restringem ao petróleo: fertilizantes (especialmente nitrogenados) e fretes marítimos tendem a reagir rapidamente, o que pode alterar os custos inerentes às empresas do agronegócio e reduzir a demanda por exportações brasileiras, o que gera preocupações adicionais em um cenário de elevada oferta por grãos como soja e milho no mercado. Como consequência, aumentamos as expectativas de inflação de alimentos ao longo dos meses seguintes e incertezas em relação às cotações de commodities agrícolas.
Estreito de Ormuz.
Estados Unidos
Nos Estados Unidos, fevereiro foi marcado por um reequilíbrio entre desinflação parcial e incerteza quanto à trajetória do núcleo. A surpresa baixista no CPI no início do mês levou os futuros de juros a reprecificarem para um cenário mais construtivo para cortes adiante, elevando a probabilidade implícita de dois cortes até dezembro, ainda que essa precificação permaneça volátil e altamente sensível aos preços de energia e aos dados de atividade.
Apesar desse movimento de mercado, dirigentes do FED mantiveram um discurso cauteloso, reforçando a necessidade de “maior confiança” de que a inflação convirja de forma sustentada para a meta de 2% antes de acelerar o ciclo de afrouxamento monetário. Nesse contexto, a leitura sobre o mercado de trabalho tem sido classificada como mista: por um lado, ele permanece resiliente, com nível de emprego consistente e taxa de desemprego ainda reduzida e, por outro, já são visíveis sinais de moderação na criação de vagas, em um ambiente caracterizado por menor dinamismo tanto nas contratações quanto nas demissões, chamado de cenário “low-hire, low-fire”.
Na leitura mais recente de inflação preferida do FED (PCE), a divulgação disponível para o fim de 2025 ainda sugere pressão mensal firme, com alta de 0,4% no índice cheio em dezembro e taxa anual em 2,9%. Já nos primeiros dias de março, o choque geopolítico no Oriente Médio mudou rapidamente a distribuição de probabilidades: a alta de petróleo e gás reacendeu o alerta de aceleração na inflação de transportes, especialmente por conta de aumentos no custo dos fretes, por conta de embarcações paradas ou até mudanças de rotas logísticas para o transporte marítmo, o que levou os investidores institucionais a reduzirem as apostas de cortes no juros iminentes, elevando yields dos treasuires e fortalecendo o dólar como ativo defensivo.
Em termos de mercado, os principais índices acionários americanos encerraram fevereiro com desempenho mais fraco, refletindo uma combinação de rotação em tecnologia/IA, ruído comercial e aumento de incerteza geopolítica. Essa dinâmica reforça um ponto de disciplina: em ambientes de incerteza, o mercado tende a precificar prêmio de risco mais alto, encurtando horizontes e ampliando a sensibilidade a surpresas na inflação.
Donald Trump, Aiatolá Ali Khamenei, e Benjamin Netanyahu.
Impacto do conflito geopolítico em ativos de risco
O avanço do conflito no Irã elevou o prêmio de risco global e trouxe de volta um padrão de aversão a risco: fortalecimento do dólar, abertura de spreads de crédito, pressão nas bolsas e alta do petróleo. Esse movimento foi acompanhado pela disparada do VIX, ultrapassando os 20 pontos, refletindo a recomposição da volatilidade implícita e maior demanda por proteção nos mercados.
O principal vetor de transmissão para os ativos de risco permanece sendo o canal energético. A elevação do petróleo reacende pressões inflacionárias, diminui a previsibilidade sobre a trajetória de cortes do Federal Reserve e comprime margens de lucro corporativas. Ainda assim, o mercado interpreta o episódio, até aqui, como um choque relevante, porém possivelmente transitório, cuja intensidade e persistência dependerão da extensão, duração e dos países envolvido no conflito.
União Europeia
Na Zona do Euro, o dado de inflação de fevereiro subiu para 1,9%, acima do esperado, com núcleo em 2,4% e serviços em patamar ainda elevado, mantendo vivo o debate sobre o grau de persistência inflacionária doméstica mesmo com a desaceleração nos custos de energia. A escalada no Oriente Médio traz um risco adicional: um choque prolongado de energia pode elevar inflação no curto prazo e, simultaneamente, piorar crescimento, colocando o Banco Central Europeu em um dilema clássico de elevada inflação e baixo crescimento na economia, o que deteriora a relação de risco e retorno nos ativos da zona do euro. A economia ainda permanece com níveis de crescimento mais fragilizados e com elevado condicionamento ao custo de energia e à estabilidade das cadeias logísticas globais, o que ainda permanecerá incerto ao longo de 2026 e 2027.
Banco Central Europeu.
Japão
O Japão é um dos casos mais expostos ao canal de energia do Oriente Médio, por dependência elevada de importações de petróleo da região e por sensibilidade do iene a choques externos. Em um cenário de tensão prolongada, o país tende a enfrentar pressão adicional de custos (via importações) e maior volatilidade cambial, o que usualmente reforça posturas mais prudentes de política econômica, mesmo quando a discussão doméstica envolve normalização gradual. Para mercados, isso costuma significar maior correlação entre energia, iene e empresas com estrutura de custos mais dependente de importados.
As eleições realizadas em 8 de fevereiro de 2026 consolidaram a influência da primeira-ministra Sanae Takaichi, fortalecendo a coalizão governista liderada pelo Partido Liberal Democrata. Para os mercados, o resultado foi relevante porque reforçou a continuidade de políticas pró-crescimento e possivelmente mais tolerantes com estímulos fiscais, o que pode manter o Japão em trajetória de maior gasto público e dívida elevada. Nesse cenário, acreditamos em uma manutenção de política fiscal expansionista, vom aumento nos gastos da máquina pública, o que pode elevar a emissão de títulos japoneses (JGBs), gerando possíveis efeitos na dinâmica global de juros, já que investidores japoneses são grandes compradores de dívida estrangeira, o que faria com ele continuassem o ciclo de redução na exposição de títulos públicos americanos e, como consequência, pressionam os juros nos estados unidos para cima.
Com os juros maiores e mais persistentes em economias como Japão, China e Estados Unidos afetam os mercados emergentes, especialmente na alocação de títulos públicos, e impedem com que as taxas de juros caiam de forma mais expressiva. Enxergamos um cenário desafiador para a classe de títulos públicos globais de médio e longo prazo, especialmente em países como Brasil e Estados Unidos.
Sanae Takaichi, nova primeira-ministra do Japão.
China
A China tem uma relação econômica particularmente material com o Irã, sobretudo pelo petróleo: é descrita como o principal comprador do petróleo iraniano, o que cria um canal direto de transmissão de risco em caso de escalada militar e sanções mais efetivas. Cerca de 50% do petróleo consumido pela China passam pelo Estreito de Ormuz. Ao mesmo tempo, a China entra nesse choque com um amortecedor importante: estoques e capacidade de gestão administrativa de preços internos, o que pode reduzir o repasse imediato de energia para inflação doméstica em comparação com economias mais sensíveis ao preço, como é o caso do Brasil. Ainda assim, o fechamento no Estreito de Ormuz atinge o custo marginal de energia para a indústria e pode afetar margens, fretes e cadeias logísticas, com reflexos em segmentos como aço, petroquímica e as demais exportações para o Oriente Médio.
Oriente Médio
O evento dominante nos primeiros dias de março foi a escalada entre EUA, Israel e Irã, com o risco de maior impacto sendo a interrupção do Estreito de Ormuz, uma rota por onde transita parcela significativa do petróleo global e gás transportado por via marítima. A reação de preços foi imediata: o petróleo e derivados subiram acima de 2 dígitos acumulados, e a inflação implícita voltou ao centro da discussão de bancos centrais e gestores, ao mesmo tempo em que ativos de risco apresentaram um aumento na oscilação, especialmente ativos digitais e empresas com elevada alavancagem financeira.
Para fins de identificação de impactos setoriais, três canais tendem a ser os mais relevantes. O primeiro é energia: produtores e cadeias ligadas a refino e combustíveis tendem a se beneficiar do preço, enquanto setores dependentes do transporte e armazenagem logística sofrem via aumento de custos. O segundo é fertilizantes: nitrogenados como ureia tendem a reagir por dois segmentos: energia (gás) como insumo e logística marítima, com potencial de pressionar custos do agronegócio e, em última instância, preços de alimentos com defasagem. O terceiro é frete e seguro marítimo: em choques de guerra, o custo de seguro e a disponibilidade de navios podem se deteriorar rapidamente, afetando o comércio, prazos de entregas e perda ou acúmulo de estoques, com impacto que ocorre de forma escalonada em diferentes indústrias.
Comércio com o Irã e leitura de impactos por setor
No caso Brasil e Irã, a relação é objetiva: o Brasil vende majoritariamente commodities agrícolas, com destaque para milho e complexo soja, enquanto compra pouco em valor absoluto, mas com relevância estratégica em fertilizantes (ureia). Assim, uma guerra que eleve energia e desloque rotas marítimas tende a atingir, do lado brasileiro, principalmente o custo de fertilizantes e frete.
No eixo EUA e Irã, o comércio direto é estruturalmente limitado por sanções, com exceções e autorizações concentradas em bens humanitários como alimentos, medicamentos e dispositivos médicos, dentro de regras específicas. Portanto, o impacto econômico para empresas americanas costuma ser predominantemente indireto, via petróleo, inflação, expectativas e risco geopolítico, mais do que via exportações e importações bilaterais.
Já a relação entre China e Irã é o canal mais material do ponto de vista de commodities, com forte peso de petróleo e derivados, além de uma engenharia logística e comercial que busca contornar restrições. Nesse contexto, o choque tende a repercutir com força em energia, petroquímicos, transporte marítimo e segmentos industriais com custo sensível a combustível, além de influenciar o apetite por risco em emergentes por meio do dólar e do prêmio de risco global.
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