Panorama Macroeconômico, destaques Offshore e Implicações para Alocação
O mês de abril foi marcado pela continuidade do choque energético decorrente da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, iniciada em 28 de fevereiro. O fechamento parcial do Estreito de Ormuz, corredor por onde transitam aproximadamente 20% do petróleo e do gás natural liquefeito mundiais, reduziu o tráfego de navios na rota a cerca de 5% do volume anterior ao conflito.
Esse gargalo logístico sustentou o petróleo Brent acima de US$ 110 por barril ao longo do mês, com pico próximo a US$ 126 no dia 30 de abril, máxima desde março de 2022, antes de perder fôlego no fechamento. O cenário tornou os bancos centrais globais cautelosos na condução da política monetária diante da reaceleração inflacionária.
O cessar-fogo condicional declarado em 8 de abril, sob mediação paquistanesa, não restaurou as condições logísticas pré-conflito. O Oxford Economics revisou o crescimento global de 2026 para 2,4%, queda de 0,4 ponto percentual desde o início de março. Esse pano de fundo reforça a convicção da Hike Capital de que estamos diante de um ciclo prolongado de juros altos, no qual a seletividade de ativos, tanto em renda fixa como em renda variável, e a qualidade dos balanços corporativos passam a ser determinantes para a consistência de retornos do investidor.
Ainda enxergamos uma maior concentração no fluxo de capital global sendo direcionado para empresas de infraestrutura, especialmente àquelas voltadas aos segmentos de sistemas elétricos, redes, expansão e modernização de data centers, cadeia produtiva dos semicondutores (wafers), computação quântica e segurança cibernética (criptografia após computação quântica).
Empresas com potencial de escala e know how suficiente para atender as grandes empresas globais de tecnologia e com balanços limpos de dívidas são as mais preparadas para se beneficiar desse ciclo.
Brasil: Real entre as moedas mais fortes do mundo, com inflação reacelerando
O IPCA-15 de abril avançou 0,89%, frente a 0,44% em março. O acumulado em 12 meses subiu para 4,37%, ante 3,90% no mês anterior, ultrapassando o teto da meta contínua de 4,5%. A pressão veio concentrada em alimentação no domicílio (+1,77%), gasolina (+4,59%) e diesel (+13,90%), todos ligados ao choque do petróleo. O boletim Focus revisou a projeção de IPCA para 4,86% em 2026, ante 3,95% antes do conflito, sinalizando que o repasse do petróleo às demais cadeias produtivas tende a ser persistente.
Em 29 de abril, o Copom cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,50% ao ano, em decisão unânime, segundo corte consecutivo do ciclo. A ata, divulgada em 5 de maio, reforçou tom de cautela e condicionou os próximos passos à profundidade dos conflitos no Oriente Médio. A leitura é que o ciclo de cortes será gradual e dependente do petróleo. Após o Copom, bancos e gestoras revisaram suas projeções de Selic ao final de 2026 para algo em torno de 13,25% (de 13,00%), distantes das expectativas iniciais de Selic em 12,5% ao final do ano.
No campo fiscal, a dívida bruta do governo geral atingiu 78,7% do PIB em janeiro, e o Tesouro projeta 83,6% ao final de 2026, com pico estimado em 88,6% em 2032. O déficit primário fechou 2025 em R$ 60,6 bilhões, equivalente a 0,48% do PIB.
O estoque da dívida pública federal somou R$ 8,6 trilhões em janeiro, com custo médio em trajetória de alta, o que dificulta um ciclo de valorização com marcação a mercado em títulos públicos, especialmente as NTNBs, devido ao cenário de aumento na oferta de títulos para financiar gastos públicos e devido à queda no prazo médio da dívida pública.
A trajetória ascendente levanta preocupações, mas o mercado tem demonstrado tolerância enquanto o diferencial de juros entre Brasil e as economias desenvolvidas (Selic vs. Fed Funds) sustenta o fluxo de capital externo.
O Ibovespa atingiu máxima histórica no fechamento em 14 de abril, aos 198.657,3 pontos, com pico intradiário superando 199 mil pontos. A partir desse ponto, no entanto, iniciou movimento de correção, acumulando queda de aproximadamente 7% em dez pregões consecutivos, refletindo realização de lucros e saída pontual de investidores estrangeiros. O índice fechou o mês em 187.317,64 pontos, praticamente estável em base mensal, mas acumulando alta de 16,26% no ano, desempenho que o coloca como o ativo de melhor performance entre as principais classes monitoradas no Brasil em 2026.
O movimento foi sustentado por três fatores combinados: o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos, atraindo capital estrangeiro (saldo líquido de R$ 60,7 bilhões no acumulado do ano até 28 de abril); a rotação global a favor de mercados emergentes diante do enfraquecimento generalizado do dólar; e a melhoria nos balanços financeiros das empresas listadas na B3, com a Petrobras adicionalmente beneficiada pelo Brent acima de US$ 110, e expansão de empresas ligadas ao agronegócio e ao setor de transportes e logística.
O dólar Ptax caiu 4,42% em abril e 9,34% no acumulado do ano, fechando a R$ 4,9523, menor patamar desde março de 2024, colocando o real entre as moedas com melhor desempenho global.
Os principais riscos para o Brasil são a trajetória da dívida pública, o calendário eleitoral de 2026 começando a entrar no preço dos ativos, e o eventual repasse cambial caso o real perca tração. Nesse cenário de dólar em queda, riscos inflacionários, e juros altos no Brasil, mantemos um viés otimistas para setores como infraestrutura energética, seguradoras, proteína animal, educação, farmácias e transporte e logística, ambas em ciclo claro de desalavancagem financeira.
Estados Unidos: Fed dividido segura juros enquanto inflação volta a subir
Em 29 de abril, o FOMC manteve a taxa básica no intervalo de 3,50% a 3,75%, com dissensão de quatro membros, a maior divergência interna desde outubro de 1992. Esse nível de discordância não é trivial: indica que o consenso técnico sobre a trajetória dos juros se rompeu, e que a transição de Powell para Kevin Warsh, com Powell continuando como diretor por tempo indeterminado, deve adicionar volatilidade ao processo decisório nos próximos trimestres.
O CPI de março registrou 3,3% em 12 meses, maior leitura desde maio de 2024. O núcleo ficou em 2,6%, e o preço médio da gasolina ultrapassou US$ 4,30 por galão, refletindo o salto de 76% no petróleo entre o final de fevereiro e o início de abril.
A inflação americana voltou a subir por choque de oferta, não por excesso de demanda, o que limita a eficácia da política monetária e reforça a convicção de juros altos por mais tempo, mas com poucas chances de altas adicionais. Os mercados precificam taxa estável até o fim de 2026, com possível corte apenas em dezembro de 2027.
Os principais riscos são o estímulo fiscal adicional via One Big Beautiful Bill, o déficit federal em níveis historicamente elevados e a possibilidade de novos repasses de energia ao núcleo da inflação.
Em um cenário de juros elevados, a prioridade da alocação volta para empresas em crescimento estrutural e acelerado na geração de fluxo de caixa livre, endividamento próximo de zero, e ROIC elevado e escalável, o que maximiza a geração de valor ao acionista e reduz riscos de deterioração no balanço em caso de escalada da inflação e juros.
União Europeia: Estagflação e dilema de política monetária
O HICP, inflação da Zona do Euro, saltou para 3,0% em abril, ante 2,6% em março, maior nível desde setembro de 2023.
A energia subiu 10,9%, maior alta desde fevereiro de 2023. O núcleo cedeu marginalmente para 2,2%, mas o PIB do 1º trimestre cresceu apenas 0,8% em base anual, configurando quadro próximo de estagflação. O BCE manteve a taxa de depósito em 2,0% pela terceira reunião consecutiva, com Lagarde admitindo que riscos de alta para a inflação e de baixa para o crescimento se intensificaram.
Com dependência energética estrutural, a região se torna mais sensível em um choque de petróleo. Os setores beneficiados atualmente são o de defesa europeia, beneficiada pelo plano alemão de infraestrutura e segurança que pode aproximar o PIB alemão do norte-americano até 2027, assim como bancos diversificados, máquinas industriais alemãs, e farmacêuticas.
O maior risco e incertezas concentram nos setores automotivo de massa, química básica e utilidades dependentes de gás natural, sendo alvos de aumento em posições vendidas.
Japão: BoJ resiste com inflação revisada e iene fragilizado
O Banco do Japão manteve a taxa em 0,75% em 28 de abril, em voto dividido 6 x 3, com três diretores defendendo alta para 1,0%. O outlook trimestral revisou drasticamente a projeção de núcleo de inflação para 2026, de 1,9% para 2,8%, e cortou o crescimento de 1,0% para 0,5%.
No contexto político-econômico atual, permanecemos comprados em empresas exportadoras industriais, bancos e fabricantes de equipamentos para semicondutores, enquanto mantemos uma visão pessimista para importadores e varejo doméstico.
China
O PBOC manteve a LPR de um ano em 3,0% e a de cinco anos em 3,5%, pelo 11º mês consecutivo. O CPI de março recuou para 1,0% em 12 meses. O governo impôs controles em gasolina e diesel para amortecer o repasse do petróleo. O 15º Plano Quinquenal (2026–2030) priorizou autossuficiência tecnológica, IA, aeroespacial e veículos elétricos.
Os resultados corporativos veem surpreendendo positivamente no ecossistema de tecnologia local, energia limpa e veículos elétricos. Os desafios econômicos na região ainda penalizam setores como real estate residencial e bancos regionais.
Destaque para os Ativos Offshore
A Infraestrutura Elétrica, Data Centers, Segurança Cibernética e Computação Quântica
A Hike Capital tem direcionado convicção crescente para empresas inseridas em ciclos de crescimento estrutural, com balanços limpos ou em desalavancagem clara. A qualidade corporativa concentra em empresas capazes de atender a clientes em escala global, cujo crescimento de receita e margem se sustenta em demanda real, contratada e visível, e cujo ROIC supera com folga o custo de capital, gerando valor ao acionista mesmo em ambiente de curva de juros e inflação em trajetória de alta.
Computação Quântica e Segurança Cibernética
A IonQ (IONQ) divulgou em 6 de maio o resultado do 1T26, com receita GAAP recorde de US$ 64,7 milhões (+755% em base anual), superando o consenso de US$ 49,7 milhões em 30% e marcando o quarto trimestre consecutivo de resultados recordes.
O EPS GAAP foi de US$ 2,59, contra expectativa de prejuízo de US$ 0,48 — surpresa de aproximadamente 640% em relação ao consenso, impulsionada por ganho não recorrente de US$ 1,06 bilhão referente à reavaliação de warrants.
As obrigações de performance remanescentes (carteira contratada futura, indicador equivalente ao backlog) somaram US$ 470 milhões, alta de 554% em base anual, e a empresa elevou o guidance de receita para 2026 de US$ 235 milhões para a faixa de US$ 260–270 milhões (mais de 100% de crescimento orgânico). A companhia encerrou o trimestre com US$ 3,1 bilhões em caixa e investimentos, perfil financeiro que sustenta o ciclo agressivo de capex sem dependência de mercado de capitais.
A IonQ atua em duas frentes estruturais: computação quântica (com sistemas próprios em arquitetura de íons aprisionados, fidelidade-alvo de 99,99% e contratos crescentes com DARPA e clientes governamentais) e cibersegurança pós-quântica (PQC), segmento em que a companhia já realiza implantações globais de soluções voltadas a proteger infraestruturas críticas contra a ameaça de descriptografia por máquinas quânticas — o chamado risco “harvest now, decrypt later”.
Os dois segmentos apresentam crescimento estrutural acelerado para os próximos anos: o mercado global de computação quântica deve sair de patamar de centenas de milhões de dólares para múltiplos de bilhões até o final da década, e o de cibersegurança pós-quântica é tratado por governos do G7 como prioridade de migração obrigatória até 2030, criando demanda contratada de longo prazo.
O EBITDA ajustado segue negativo em US$ 96,8 milhões no trimestre, refletindo o estágio de pré-rentabilidade da companhia, mas a combinação de receita acelerando, backlog expandindo em ritmo de três dígitos e caixa robusto compõe perfil de risco-retorno alinhado à nossa tese de crescimento estrutural com qualidade de balanço.
Infraestrutura Elétrica e Data Centers
Na infraestrutura física e elétrica de data centers, principal gargalo crítico do boom da inteligência artificial e computação em nuvem, alguns nomes se destacaram.
A Sterling Infrastructure (STRL) divulgou em 4 de maio (após o fechamento) os resultados do 1T26, com receita de US$ 825,7 milhões (+92% em 12 meses), EPS ajustado de US$ 3,59 (versus consenso de US$ 2,28) e backlog combinado de US$ 5,15 bilhões (+131%). A receita do segmento de E-Infrastructure cresceu 174%, puxada pela transição dos data centers para campi de milhares de acres.
A empresa elevou o guidance anual de US$ 13,45–14,05 para US$ 18,40–19,05 em EPS. Na sessão seguinte, em 5 de maio, a ação subiu mais de 50% em um único pregão e ultrapassou US$ 800.
A Powell Industries (POWL), fabricante de equipamentos elétricos, divulgou em 4 de maio o 2T fiscal de 2026 com receita de US$ 296,6 milhões (+6%) e backlog de US$ 1,8 bilhão (+33% em base anual e +12% em base sequencial).
Após o fechamento do trimestre, anunciou o maior pedido da história da companhia: uma mega encomenda para data center superior a US$ 400 milhões. A companhia acumula US$ 545 milhões em caixa e investimentos de curto prazo, perfil que reforça nossa tese de qualidade de balanço.
A Celestica (CLS) registrou no 1T26, divulgado em 27 de abril, receita de US$ 4,05 bilhões (+53%), com o segmento de Conectividade e Cloud crescendo 76% e o subsegmento Enterprise AI/ML mais que dobrando, para US$ 830 milhões (+101%). Conquistou contrato de switch CPO Ethernet de 1,6 terabit com cliente hyperscaler, e elevou o guidance anual em US$ 2 bilhões, para US$ 19 bilhões em receita e US$ 10,15 em EPS ajustado. A ação acumula alta superior a 320% em 12 meses.
A Cadeia Produtiva dos Semicondutores
Na cadeia de semicondutores, a notícia de maior impacto em abril foi a confirmação do projeto Terafab, da Tesla e SpaceX em parceria com Intel e xAI, com investimento estimado em US$ 55 bilhões inicialmente e potencial de US$ 119 bilhões nas fases subsequentes.
A Lam Research (LRCX) foi listada como fornecedora de equipamentos de etch, deposição e cleaning. No 3T fiscal, divulgado em 22 de abril, reportou receita recorde de US$ 5,84 bilhões e EPS ajustado de US$ 1,47, ambos acima do consenso (US$ 5,76 bilhões e US$ 1,36).
A administração elevou a projeção de gastos globais com Wafer (principal insumo para os semicondutores) para US$ 140 bilhões em 2026. A ação atingiu nova máxima histórica.
A KLA Corp (KLAC), líder em controle de processos, divulgou em 29 de abril o resultado do 3T fiscal de 2026 com receita de US$ 3,415 bilhões (+11% YoY) e EPS ajustado de US$ 9,40. Elevou a projeção de receita de advanced packaging de US$ 635 milhões em 2025 para aproximadamente US$ 1 bilhão em 2026.
O setor de metrologia, liderado pela KLA e pela NOVA, são responsáveis por capturar o crescimento mais acelerado e lucrativo dentro de toda a cadeia produtiva dos semicondutores, beneficiando das inovações tecnológicas e do aumento de produtividade causada no setor tecnológico.
Foco em Qualidade, Resiliência e Convicção em Ciclos de Crescimento Estrutural
A leitura central da Hike Capital é de que os juros permanecerão altos por um período prolongado, deteriorando a qualidade de ativos que precisam de juros menores para gerar caixa, e retirando atratividade de ativos especulativos.
Ativos com caráter mais especulativo, como as criptomoedas, ou ativos com mais sensíveis às oscilações da curva de juros, como ações de empresas cíclicas, de commodities e alavancadas perdem atratividade.
A posição atual dos spreads de crédito no Brasil e a baixa probabilidade de queda acentuada nos juros retiram o fluxo de capital que seria destinado para títulos de renda fixa com duration elevada ou indexados ao IPCA, como as NTNBs, devido aos maiores riscos de choques na classe, especialmente no caso das debentures incentivadas.
A demanda acelerada por infraestrutura de IA, energia e semicondutores estão criando gargalos físicos que pressionam custos e as curvas de juros ao redor do globo, e os efeitos da guerra no Oriente Médio devem manter a inflação resiliente em todas as regiões cobertas.
O cenário atual exige cautela gestão de riscos, evitando posições em ativos dependentes de juros e inflação contidos.