Panorama Macroeconômico, destaques Offshore e Implicações para Alocação
O mês de maio foi marcado por uma inflexão relevante no cenário geopolítico global: as negociações entre Estados Unidos e Irã evoluíram para um entendimento provisório, prevendo cessar-fogo de 60 dias e a reabertura gradual do Estreito de Ormuz.
O acordo ainda aguardava ratificação formal ao longo da última semana do mês, mas a sinalização foi suficiente para provocar uma queda expressiva nos preços do petróleo.
O barril de Brent recuou 17,4% em maio, encerrando o período a US$ 91,12, enquanto o WTI acumulou baixa de 16,8% e fechou a US$ 87,36. A normalização parcial do Estreito, ainda longe de restabelecer os volumes de antes do conflito, sinalizou ao mercado uma trajetória de desinflação energética que, se confirmada, altera a rota dos bancos centrais no segundo semestre de 2026.
As bolsas americanas, impulsionadas pela rotação para infraestrutura e tecnologia e pelo ciclo de resultados corporativos acima das expectativas, atingiram máximas históricas. O S&P 500 avançou 5,15% no mês e o Nasdaq registrou alta de 8,36%, o melhor período de dois meses para o índice em mais de 20 anos. Os setores de infraestrutura, semicondutores e computação quântica ainda apresentam projeções de crescimento agressivas e consistentes ao longo dos próximos anos, o que sustenta evolução nos fluxos de caixas e múltiplos maiores por parte dessas empresas.
No Brasil, o movimento foi oposto: o Ibovespa acumulou queda de 7,06%, o pior desempenho mensal desde fevereiro de 2023, com saída líquida de estrangeiros estimada em R$ 14,1 bilhões até o dia 27, refletindo uma combinação de reaceleração inflacionária, incerteza política pré-eleitoral, necessidade de recompra de títulos públicos por falta de demanda, e ciclo de cortes da Selic mais curto do que o mercado havia precificado no início do ano. A curva de juros voltou a se posicionar acima de 14% e as NTNBs sendo precificadas a um juro real superior a 8%.
O JP Morgan divulgou em maio seu Mid-Year Outlook 2026, intitulado Promise and Pressure, reafirmando os três temas que orientam sua visão de alocação: fragmentação geopolítica, inflação estruturalmente mais volátil e expansão da inteligência artificial. O banco reforçou que a tradicional combinação de ações e títulos de renda fixa deixou de oferecer proteção adequada em ciclos de inflação recorrente, e passou a recomendar exposição mais ampla a ativos reais, infraestrutura global, commodities e estratégias ativas.
A Hike Capital mantém essa visão alinhada à sua tese de alocação: setores com crescimento estrutural visível, balanços limpos e capacidade de escala global continuam sendo o núcleo de convicção do portfólio.
Brasil: Inflação reacelerando, bolsa em correção e incerteza pré-eleitoral
O IPCA-15 de maio, divulgado em 27 de maio pelo IBGE, avançou 0,62%, superando a estimativa mediana do mercado de 0,53%. O índice acumulou 4,64% em 12 meses, ultrapassando pela primeira vez no ano o teto da meta contínua do Banco Central, que é de 4,5%.
O resultado do período de coleta de 16 de abril a 15 de maio revelou pressão disseminada: alimentação e bebidas subiram 1,38%, habitação avançou 1,03%, com destaque para a alta de 2,16% na energia elétrica residencial, decorrente da entrada em vigor da bandeira tarifária amarela, e o núcleo do IPCA-15 também registrou alta de 0,46%, sinal de que as pressões de energia começam a se espalhar para outros componentes da cesta. Apenas o grupo de transportes apresentou variação negativa, de 0,33%, em resposta à queda do petróleo no final do mês.
O boletim Focus da última semana de maio revisou a projeção de IPCA para 5,04% em 2026, acima dos 4,86% registrados na semana anterior ao Copom de abril. A expectativa para a Selic ao final do ano foi mantida em 13,25%, sinalizando um ciclo de cortes curto e dependente da evolução do conflito no Oriente Médio.
O IPCA cheio de abril, divulgado em 12 de maio, havia registrado 0,67%, desacelerando em relação aos 0,88% de março, mas o acumulado em 12 meses subiu para 4,39%.
O Ibovespa fechou maio aos 173.787 pontos, com queda de 7,06% no mês, a sétima semana consecutiva de perdas e o pior desempenho mensal desde fevereiro de 2023. A correção acumula cerca de 25 mil pontos desde a máxima histórica de 198.657 registrada em 14 de abril. O índice ainda acumula alta de 7,86% no ano.
A saída líquida de estrangeiros foi estimada em R$ 14,1 bilhões até o dia 27 de maio, revertendo parte do fluxo expressivo que havia sustentado a bolsa no início do ano. O dólar Ptax encerrou acima de R$ 5,00 ao longo do mês, com alta de 1,82% em maio, revertendo parte da apreciação do real dos meses anteriores.
O JP Morgan destacou em relatório divulgado durante o mês que três fatores adversos passaram a alterar o equilíbrio de risco-retorno no Brasil: o aumento da incerteza política relacionada ao calendário eleitoral de 2026, um ciclo de afrouxamento monetário do BC mais curto e menos intenso do que o esperado, e a aceleração do afrouxamento fiscal no período pré-eleitoral (expansão dos gastos e da necessidade de endividamento).
O banco manteve perspectiva de fundamentos resilientes, mas avaliou que essas dinâmicas devem pressionar o equilíbrio entre risco e retorno até outubro.
No plano fiscal, a dívida bruta do governo geral permanece em trajetória ascendente, com o Tesouro Nacional projetando 83,6% do PIB ao final de 2026 e pico de 88,6% em 2032.
Os dados do déficit primário e o custo médio crescente da dívida pública continuam sendo monitorados de perto pelo mercado, especialmente em um ambiente em que o prazo médio da dívida se reduz e a necessidade de rolagem aumenta. A Hike Capital mantém cautela em relação a títulos de renda fixa com duration elevado ou indexados à inflação no contexto atual, tendo em vista os maiores riscos de reprecificação da curva.
No cenário atual, seguimos com visão positiva para setores que combinam crescimento de receita visível, desalavancagem financeira e proteção relativa contra inflação: infraestrutura energética, transporte e logística, proteína animal, farmácias e seguradoras.
Empresas com contratos de longo prazo, receita indexada e balanços sem dependência de capital de terceiros a curto prazo estão melhor posicionadas para atravessar o período eleitoral com menor volatilidade.
O movimento foi sustentado por três fatores combinados: o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos, atraindo capital estrangeiro (saldo líquido de R$ 60,7 bilhões no acumulado do ano até 28 de abril); a rotação global a favor de mercados emergentes diante do enfraquecimento generalizado do dólar; e a melhoria nos balanços financeiros das empresas listadas na B3, com a Petrobras adicionalmente beneficiada pelo Brent acima de US$ 110, e expansão de empresas ligadas ao agronegócio e ao setor de transportes e logística.
O dólar Ptax caiu 4,42% em abril e 9,34% no acumulado do ano, fechando a R$ 4,9523, menor patamar desde março de 2024, colocando o real entre as moedas com melhor desempenho global.
Os principais riscos para o Brasil são a trajetória da dívida pública, o calendário eleitoral de 2026 começando a entrar no preço dos ativos, e o eventual repasse cambial caso o real perca tração. Nesse cenário de dólar em queda, riscos inflacionários, e juros altos no Brasil, mantemos um viés otimistas para setores como infraestrutura energética, seguradoras, proteína animal, educação, farmácias e transporte e logística, ambas em ciclo claro de desalavancagem financeira.
EUA: Máximas históricas nas bolsas, inflação estrutural e Fed em compasso de espera
5,15% no mês e o Nasdaq acumulando 8,36%. O resultado foi impulsionado por uma sequência de balanços corporativos acima das expectativas, mais de 80% das empresas do S&P 500 que divulgaram resultados até o início de maio superaram as estimativas dos analistas, de acordo com dados da LSEG.
A alta, no entanto, concentrou-se em um grupo reduzido de empresas: no último pregão do mês, apenas 20 ações do S&P 500 renovaram suas máximas históricas, a maioria com exposição direta à inteligência artificial, o que intensificou o debate dos estrategistas sobre a amplitude e a sustentabilidade do rali.
O FOMC manteve a taxa dos Fed Funds no intervalo entre 3,50% e 3,75% ao ano na reunião de abril, com crescente divisão interna. A ata da reunião, divulgada em maio, revelou que a maioria dos dirigentes sinalizou que algum aperto seria apropriado se a inflação continuasse persistentemente acima de 2%. A inflação medida pelo CPI de abril havia registrado 3,8% em 12 meses, com o componente de energia avançando 17,9% na comparação anual.
O núcleo ficou em 2,6%, mas a tendência de repasse para serviços e demais componentes não energéticos aumentou a cautela do Comitê. O mercado passou a precificar manutenção dos juros até o final de 2026, com possibilidade de corte apenas em dezembro, na melhor hipótese.
Jerome Powell confirmou em maio que permanecerá como diretor do Fed após o encerramento do seu mandato como chair, o que adiciona alguma continuidade ao processo decisório, ainda que o perfil interno do FOMC se torne progressivamente menos consensual. O O dot plot da reunião de março sinalizou apenas um corte de 0,25 pp ao longo de 2026, com a inflação do núcleo do PCE revisada para 2,7%.
O Mid-Year Outlook do JP Morgan, divulgado em maio, alertou que mesmo antes do conflito no Irã os preços ao consumidor dos EUA já acumulavam alta superior a 25% ao longo dos anos 2020, enquanto os retornos da renda fixa com alta duration somavam apenas 5% no período.
O banco recomendou expansão do toolkit de alocação para incluir ativos reais, infraestrutura global e estratégias ativas, em detrimento da alocação passiva tradicional (ETFs de índices ou setoriais) em ações e títulos (bonds). A BlackRock reforçou, em sua Perspectiva Global, a preferência por ações americanas dentro da tese de IA, mantendo posição pró-risco e subponderação tática em Treasuries de longo prazo.
Os setores de maior destaque no mês seguiram sendo tecnologia, semicondutores e infraestrutura física para data centers. O setor de defesa, energia e saúde também manteve fluxo positivo.
Os principais riscos no horizonte de médio prazo incluem a trajetória do déficit federal americano, agravada pelo One Big Beautiful Bill, a possibilidade de reprecificação das Treasuries com eventual perda de confiança fiscal e o risco de second-round effects da inflação de energia nos preços de serviços e bens industriais.
Já no início de junho, o relatório de emprego dos Estados Unidos (payroll) referente a maio, divulgado pelo Bureau of Labor Statistics na sexta-feira, 5 de junho, surpreendeu para cima: foram criados 172 mil postos de trabalho não agrícolas, ante expectativa de cerca de 80 mil, com a taxa de desemprego estável em 4,3% e ganho médio por hora de 0,3% no mês (3,4% em 12 meses).
Os números de março e abril ainda foram revisados para cima em 93 mil vagas no conjunto. A leitura de um mercado de trabalho resiliente reduz o espaço para cortes de juros e pressionou para cima os rendimentos dos Treasuries, o que foi uma das razões que derrubaram as bolsas americanas na própria data da divulgação, em um pregão que combinou esse efeito a uma forte realização nas ações de semicondutores após o balanço da Broadcom: o Nasdaq recuou cerca de 4% e o S&P 500 perdeu em torno de 2,6%, na maior queda do índice de tecnologia desde abril de 2025.
União Europeia: Inflação acelerando pelo quarto mês consecutivo e BCE diante de uma escolha difícil
A taxa de inflação na zona do euro subiu para 3,2% em maio, ante 3,0% em abril, de acordo com a estimativa rápida do Eurostat divulgada em 2 de junho. O resultado marcou o quarto mês consecutivo de aceleração desde o início do conflito no Oriente Médio e ficou levemente abaixo da previsão de 3,3% dos analistas consultados pela FactSet.
O componente de energia avançou 10,9% em relação ao mesmo período do ano anterior, estabilizando-se em relação a abril, mas o núcleo da inflação, que exclui energia e alimentos, subiu de 2,2% para 2,5%, sinal de que as pressões inflacionárias começam a contaminar outros segmentos da economia europeia. A inflação de serviços avançou de 3,0% em abril para um patamar superior em maio, o que preocupou membros do BCE ao longo do mês.
O BCE manteve sua taxa de depósito em 2,0% ao longo de maio, em postura de com passo de espera. Contudo, ao final do mês, dois membros do Conselho, Isabel Schnabel e Philip Lane, deram sinais públicos de que uma alta de juros já em junho é possível. Schnabel alertou que tudo aponta para que a inflação possa atingir 4% até o final de 2026, impulsionada pelo choque de energia e por sinais crescentes de contaminação para outros bens e serviços.
Lane, por sua vez, reconheceu que o cenário piorou desde março e preparou os mercados para uma possível inflexão na política monetária na reunião de 11 de junho. A próxima decisão do BCE é monitorada como evento de risco relevante para os mercados europeus.
O PIB da zona do euro cresceu apenas 0,8% em base anual no primeiro trimestre de 2026, configurando um quadro de fraca expansão em ambiente de inflação elevada. A dependência energética estrutural da região, aliada ao fechamento parcial do Estreito de Ormuz ao longo do trimestre, manteve os custos industriais pressionados e afetou a competitividade das exportações europeias.
Japão: PIB acima das expectativas e BoJ pressionado a apertar mais
O PIB do Japão no primeiro trimestre de 2026 cresceu 0,5%, resultado acima das estimativas do mercado e que reforçou o debate sobre uma nova alta de juros pelo Banco do Japão. O BoJ havia mantido sua taxa em 0,75% na reunião de 28 de abril, em votação dividida de 6 a 3, com três diretores defendendo elevação imediata para 1,0%.
A ata divulgada em maio revelou que a maioria dos formuladores de política monetária permaneceu cautelosa em relação ao conflito no Oriente Médio, mas reconheceu que a inflação revisada pode exigir uma resposta mais rápida se os efeitos de segunda rodada se materializarem. Um dos diretores afirmou que uma alta de juros já na próxima reunião é plenamente possível, mesmo com a incerteza geopolítica persistente.
O outlook trimestral do BoJ de abril já havia revisado drasticamente a projeção de núcleo de inflação para o ano fiscal de 2026, de 1,9% para 2,8%, e cortado a previsão de crescimento de 1,0% para 0,5%.
O iene seguiu em trajetória de enfraquecimento ao longo do mês de maio, com o par USD/JPY operando na faixa de 155 a 160, ampliando os custos de importação de energia e alimentos para empresas e consumidores japoneses. O Ministério das Finanças confirmou intervenção cambial entre 28 de abril e 27 de maio.
A reunião de junho do BoJ é monitorada como o evento de maior risco na agenda dos bancos centrais asiáticos. Uma alta de juros forçaria uma reprecificação de ativos globalmente, dada a relevância do carry trade do iene como fonte de alavancagem em mercados emergentes e em ativos de risco desenvolvidos. O banco holandês ING considera mais provável que o BoJ eleve juros apenas em outubro, mas a divisão interna torna a reunião de junho um evento de risco real.
A Hike Capital mantém posição positiva em exportadoras industriais japonesas, bancos e fabricantes de equipamentos para semicondutores, que seguem beneficiados pela demanda global por capacidade de produção de chips e pela valorização relativa de exportações com iene fraco. A visão é mais cautelosa para importadores e varejo doméstico, sensíveis ao custo de energia importada e à queda no poder de compra real das famílias.
China: Estabilização industrial, consumo fraco e demanda interna ainda aquém
O PMI industrial da China recuou de 50,3 em abril para 50,0 em maio, sinalizando estabilização na borda do território de expansão após dois meses consecutivos de crescimento. O PMI composto, no entanto, avançou de 50,1 para 50,5, puxado pela recuperação dos serviços, cujo índice passou de 49,4 para 50,1, retornando ao campo positivo.
O PMI da indústria de alta tecnologia subiu para 52,9 e o de maquinaria para 52,1, indicando que os segmentos de maior valor agregado continuam se expandindo a um ritmo superior ao da indústria geral, em linha com a prioridade estabelecida pelo 15o Plano Quinquenal para autossuficiência tecnológica e veículos elétricos.
O consumo doméstico, no entanto, permanece como o principal vetor de fraqueza. As vendas no varejo cresceram apenas 0,2% em abril, o resultado mais fraco desde a era da pandemia.
O HSBC cortou sua projeção de crescimento das vendas a retalho na China para 2026 de 5,2% para 2,8%, citando o comprometimento da confiança dos consumidores após anos de crise no setor imobiliário. O investimento em imóveis residenciais e os bancos regionais com grande exposição ao setor continuam como os segmentos de maior risco estrutural na economia chinesa.
O PBOC manteve a LPR de um ano em 3,0% e a de cinco anos em 3,5% ao longo do mês, optando por não adicionar estímulos monetários adicionais à economia. A avaliação de muitos economistas é que Pequim não deve intervir de forma expressiva no curto prazo, em parte porque o crescimento do primeiro trimestre ficou acima das expectativas e as exportações seguem resilientes, sustentadas pelo redirecionamento de fluxos para Europa e América Latina.
O Morgan Stanley avalia que a meta de crescimento de 4,5% a 5,0% para 2026 é alcançável, mas aponta a evolução do mercado global de petróleo como principal fator de incerteza.
A Hike Capital mantém visão positiva para o ecossistema de tecnologia local, energia limpa e veículos elétricos na China, aproveitando a tese de crescimento estrutural do setor e a política industrial de longo prazo. O real estate residencial e os bancos regionais com alta exposição ao setor imobiliário permanecem fora do escopo de alocação.
Coreia do Sul: Semicondutores sustentam exportações em meio a custo energético elevado
A Coreia do Sul seguiu em maio com desempenho exportador sustentado pelo ciclo de semicondutores, embora com sinais de moderação em relação ao ritmo acelerado do primeiro bimestre. O superávit comercial acumulado ao longo dos últimos meses permaneceu robusto, apoiado pela forte demanda global por chips para aplicações de IA. No início do ano, as exportações de semicondutores haviam registrado alta superior a 100% em base anual, refletindo a aceleração dos gastos em infraestrutura de data centers globalmente.
O Banco da Coreia (BOK) manteve a taxa básica em 2,50% ao ano pela sétima reunião consecutiva, sob nova presidência de Shin Hyun-song. A decisão refletiu a cautela diante das incertezas do Oriente Médio e do impacto dos preços de energia sobre a indústria sul-coreana, que é grande importadora de petróleo e gás. A Coreia do Sul reviu para cima sua projeção de crescimento do PIB para 2,0% em 2026, beneficiada pela demanda robusta por semicondutores, embora a pressão de custos energéticos represente risco crescente às margens industriais.
O PMI de manufatura permaneceu acima de 51 em fevereiro e início de 2026, mantendo o terceiro mês consecutivo de expansão. O segmento de semicondutores, que responde por parcela decisiva das exportações totais do país, continuou sendo o principal motor. A Hike Capital mantém visão positiva para fabricantes de chips de memória e de equipamentos para semicondutores sul-coreanos com forte exposição à demanda de data centers globais. Os riscos relevantes incluem eventuais restrições de oferta de gás e petróleo e pressões adicionais sobre o won decorrentes da manutenção de juros elevados nos EUA.
Oriente Médio: Negociações avançam, petróleo cede o o mundo reajusta projeções
O grande evento do mês no Oriente Médio foi a aproximação diplomática entre Estados Unidos e Irã, que evoluiu para a elaboração de um memorando de entendimento prevendo um cessar-fogo de 60 dias, reabertura do Estreito de Ormuz e início de negociações sobre o programa nuclear iraniano.
O acordo provisório, cuja ratificação final ainda estava em aberto ao final de maio, incluiu compromissos iranianos de remover minas e suspender o enriquecimento de urânio, enquanto Washington sinalizou disposição para discutir o desbloqueio de recursos iranianos congelados e a suspensão gradual de sanções.
A combinação de avanço diplomático e expectativa de normalização dos fluxos de petróleo pelo Estreito provocou a queda de 17,4% no Brent ao longo do mês, encerrando o período a US$ 91,12 por barril. Esse recuo, se mantido, representa uma desinflação de oferta que pode modificar as projeções dos bancos centrais para o segundo semestre, especialmente na Europa, onde a inflação energética havia se consolidado como o principal vetor de pressão.
Contudo, o conflito em si não está resolvido: os pontos sobre o programa nuclear permanecem em aberto e o cessar-fogo é condicional, o que mantém o risco de reversão como fator relevante para o mercado de energia.
A queda do petróleo em maio impactou negativamente as ações de empresas de energia ao redor do mundo, incluindo a Petrobras no Brasil, contribuindo para a piora do Ibovespa.
Ao mesmo tempo, o recuo energético favoreceu a perspectiva de desinflação nos EUA e na Europa, reavivando apostas em cortes de juros mais cedo do que o precificado no pico da crise. A Hike Capital monitora de perto a evolução das negociações e o comportamento do Brent como variável de calibração das projeções inflacionárias globais para o segundo semestre.
Destaques para ativos globais
Infraestrutura, Semicondutores e Computação Quântica continuam ignorando a volatilidade macroeconômica
Enquanto o Ibovespa acumulava seu pior mês em três anos e as bolsas europeias operavam com cautela diante da perspectiva de alta de juros pelo BCE, um conjunto selecionado de empresas ligadas à infraestrutura física de data centers, semicondutores e computação quântica continuou entregando resultados recordes, elevando guidance e registrando altas expressivas em maio. Esse comportamento reforça a tese central da Hike Capital: empresas com crescimento estrutural acelerado, receita visível e contratada, balanços sólidos e ROIC superior ao custo de capital operam em ciclo próprio, relativamente desconectado das oscilações macroeconômicas de curto prazo.
Infraestrutura Elétrica e Data Centers
A Sterling Infrastructure (STRL) reportou em 4 de maio os resultados do 1T26 com receita de US$ 825,7 milhões, alta de 92% em base anual, superando o consenso de US$ 592 milhões em 39%. O EPS ajustado de US$ 3,59 ficou 57% acima da estimativa de US$ 2,28. O backlog combinado atingiu US$ 5,15 bilhões, alta de 131%, ancorado principalmente pelo segmento de E-Infrastructure, que cresce 174% impulsionado pela transição dos data centers para campi de milhares de acres para atender a demanda de IA.
A empresa elevou o guidance anual de receita para US$ 3,70 a US$ 3,80 bilhões (de US$ 3,05 a US$ 3,20 bilhões anteriores) e de EPS ajustado para US$ 18,40 a US$ 19,05. No pregão seguinte, em 5 de maio, a ação valorizou 52% em um único dia, superando US$ 800, e acumula alta superior a 150% no ano. O pool de oportunidades se aproxima de US$ 6,5 bilhões para fases futuras de projetos já contratados, o que confere visibilidade de receita por vários trimestres à frente.
A Powell Industries (POWL), fabricante de equipamentos elétricos de alta tensão para data centers, completou em maio a consolidação do maior pedido da história da companhia, superior a US$ 400 milhões para infraestrutura de data center. O backlog acumulado atingiu US$ 1,8 bilhão, alta de 33% em base anual, com a empresa encerrando o trimestre mais recente com US$ 545 milhões em caixa e investimentos de curto prazo, perfil que reforça a qualidade do balanço.
A Celestica (CLS), fornecedora de servidores e infraestrutura de conectividade para hyperscalers, havia divulgado em 27 de abril resultados do 1T26 com receita de US$ 4,05 bilhões (+53%), com o subsegmento de Enterprise AI/ML mais que dobrando para US$ 830 milhões. A empresa conquistou no período contrato de switch CPO Ethernet de 1,6 terabit com cliente hyperscaler e elevou o guidance anual em US$ 2 bilhões, para US$ 19 bilhões em receita e US$ 10,15 em EPS ajustado. A ação acumula alta superior a 320% em 12 meses.
Computação Quântica e Segurança Cibernética
A IonQ (IONQ), que havia divulgado em 6 de maio os resultados do 1T26, seguiu em trajetória de aceleração ao longo de maio. A empresa reportou receita recorde de US$ 64,7 milhões (+755% em base anual), elevou o guidance de receita para US$ 260 a US$ 270 milhões e encerrou o trimestre com US$ 3,1 bilhões em caixa e investimentos, eliminando qualquer dependência de mercado de capitais para o ciclo de crescimento atual. A ação operou entre US$ 47 e US$ 73 ao longo de maio, negociando próxima de US$ 70 ao final do mês, refletindo o mercado assimilando gradualmente a escala dos contratos com o governo americano e clientes corporativos globais.
O backlog de receitas futuras contratadas somou US$ 470 milhões ao final do trimestre, alta de 554% em base anual. O segmento de cibersegurança pós-quântica (PQC) ganhou relevância institucional ao longo do mês, com governos do G7 reforçando a prioridade de migração de sistemas críticos para criptografia resistente à computação quântica até 2030. A empresa opera em dois eixos de crescimento estrutural com demanda contratada e visível: computação quântica (com sistemas de íons aprisionados e contratos crescentes com DARPA) e segurança cibernética pós-quântica, segmento em que realiza implantações globais para proteger infraestruturas críticas.
Cadeia Produtiva dos Semicondutores
A Lam Research (LRCX) e a KLA Corp (KLAC) seguiram como os principais referenciais de performance dentro da cadeia de equipamentos para semicondutores ao longo de maio, após resultados sólidos divulgados em abril.
A LRCX havia reportado receita recorde de US$ 5,84 bilhões no 3T fiscal com EPS ajustado de US$ 1,47, enquanto a administração elevou a projeção de gastos globais com wafers para US$ 140 bilhões em 2026. A KLAC registrou US$ 3,415 bilhões em receita no 3T fiscal com EPS ajustado de US$ 9,40, elevando a projeção de receita de advanced packaging para aproximadamente US$ 1 bilhão em 2026, crescimento de mais de 57% ante os US$ 635 milhões de 2025. O Nasdaq, impulsionado por nomes ligados a IA e semicondutores, fechou maio em máxima histórica.
O projeto Terafab, da parceria entre Tesla, SpaceX, Intel e xAI, com investimento estimado em US$ 55 bilhões na fase inicial e potencial de US$ 119 bilhões em fases subsequentes, seguiu como um dos principais vetores de expansão de capex do setor. A Lam Research está listada como fornecedora de equipamentos de etch, deposição e cleaning para o projeto. O ciclo de investimento em fabricação avançada de chips, aliado ao boom de data centers para IA, deve sustentar um nível de gastos globais com equipamentos sem precedente ao longo da segunda metade da década.
Seletividade, Qualidade e Convicção em Ciclos de Crescimento Estrutural
Maio confirmou a dinâmica que a Hike Capital tem destacado em suas comunicações ao longo do ano: os mercados globais continuam em um regime de alta volatilidade e retornos assimétricos, no qual a seletividade de ativos e a qualidade dos balanços corporativos determinam de forma crescente a consistência do portfólio.
O recuo do petróleo, decorrente do avanço nas negociações EUA-Irã, trouxe um elemento de desinflação que pode abrir espaço para maior atividade dos bancos centrais no segundo semestre, mas a sequência de dados confirmatórios ainda precisará ser observada antes que os grandes bancos centrais alterem sua postura.
A divergência entre os mercados americano e brasileiro em maio foi um retrato preciso das forças que atuam sobre cada economia: nos EUA, o ciclo de crescimento de receitas das empresas de tecnologia e infraestrutura de IA superou os riscos macroeconômicos; no Brasil, a combinação de inflação reacelerando, saída de estrangeiros e incerteza eleitoral pesou sobre ativos que haviam tido performance excepcional no início do ano. A bolsa brasileira ainda acumula alta de 7,86% no ano, mas o sinal de alerta sobre a seletividade dentro do Ibovespa ficou mais forte.
O Mid-Year Outlook do JP Morgan, o Global Outlook da BlackRock e os relatórios setoriais do Morgan Stanley publicados em maio convergiram em três pontos centrais: inflação estruturalmente mais alta exige portfólios mais ativos e diversificados além de ações e renda fixa; a infraestrutura física e digital para IA representa a maior oportunidade de crescimento secular em curso; e a fragmentação geopolítica cria tanto riscos como oportunidades de alocação em regiões e setores que se beneficiam da relocalização de cadeias de suprimentos.
A Hike Capital segue com convicção em empresas que reúnem: crescimento acelerado de receita com visibilidade contratada, ROIC superior ao custo de capital, balanços com caixa líquido ou baixo endividamento, e posição relevante na cadeia de valor da infraestrutura elétrica para data centers, semicondutores, computação quântica e segurança cibernética. No mercado doméstico, a postura permanece seletiva: preferimos setores com contratos de longo prazo, receita indexada e desalavancagem operacional demonstrável, mantendo cautela diante do risco eleitoral, da trajetória da dívida pública e do comportamento da inflação nos próximos meses