Carta do Gestor: O novo crash da Inteligência Artificial
- Por Angelo Belitardo
A correção nas ações de infraestrutura e tecnologia
O Ibovespa subiu 2,98% em julho e fechou aos 177.158,86 pontos, no primeiro mês positivo depois de quatro quedas seguidas. O dólar caiu cerca de 2% e encerrou o mês a R$ 5,0611.
Lá fora o movimento foi na direção oposta. As ações de tecnologia e de infraestrutura caíram forte: o índice de semicondutores da Filadélfia recuou 24% desde o topo de junho, o Nasdaq perdeu mais de 10% e a bolsa da Coreia do Sul caiu 34% em cinco semanas. Com a escalada dos ataques dos Estados Unidos ao Irã, o petróleo voltou a subir e o Brent avançou 23,5% no mês, chegando a superar US$ 100 o barril. O juro de trinta anos dos Estados Unidos alcançou 5,24%, o maior nível em dezenove anos, depois que três dirigentes do Federal Reserve votaram a favor de aumentar os juros.
A queda das ações de tecnologia não veio de piora nos negócios dessas empresas. As quatro maiores companhias de nuvem do mundo divulgaram resultados no mês e todas aumentaram o investimento previsto para 2026. O que derrubou os preços foi a venda forçada de fundos muito alavancados, que precisavam somar posições para atender a chamadas de garantia dos bancos. Esse é o ponto central de julho, e é o que abre uma janela de compra em ativos ligados a energia, redes elétricas, refrigeração e data centers.
A correção nas ações de infraestrutura e tecnologia
O índice de semicondutores da Filadélfia entrou em mercado de baixa em julho, mais de 20% abaixo do topo de junho, depois de ter subido 130% em doze meses. A Nasdaq fechou 29 de julho aos 24.442,94 pontos, mais de 10% abaixo do recorde do início de junho. O Dow Jones caiu 1.153,18 pontos naquela sessão, o pior dia desde abril de 2025. Entre 24 e 29 de julho, a Nvidia perdeu US$ 238 bilhões de valor de mercado, a SK Hynix US$ 176 bilhões, a Samsung US$ 173 bilhões e a Micron US$ 113 bilhões.
As cinco posições da carteira ligadas ao tema caíram entre 35% e 57% do topo até o fundo, e todas fizeram a mínima no mesmo dia, 29 de julho. O que separou uma da outra foi o que veio depois: as duas que divulgaram resultado no fim do mês recuperaram quase tudo, e as que ainda não divulgaram seguiram no chão.
As empresas de nuvem aumentaram o investimento
As quatro maiores companhias de nuvem divulgaram resultados entre 22 e 30 de julho e todas revisaram o investimento para cima. A Alphabet elevou o valor previsto para 2026 de US$ 180 a 190 bilhões para US$ 195 a 205 bilhões, com US$ 44,9 bilhões investidos só no trimestre, o dobro do ano anterior.
A companhia queimou US$ 5,9 bilhões de caixa no período, o primeiro trimestre negativo desde a abertura de capital em 2004, e seus compromissos já assinados com fornecedores chegaram a US$ 811 bilhões, aumento de aproximadamente US$ 500 bilhões em
três meses.
A Amazon elevou o investimento de 2026 em US$ 20 bilhões, para US$ 220 bilhões, com a AWS crescendo 37%, o maior ritmo desde 2021. A Meta estreitou a faixa para US$ 130 a 145 bilhões, contra US$ 72,2 bilhões gastos em 2025. A Microsoft indicou investimento maior no próximo exercício, com o primeiro trimestre acima de US$ 50 bilhões.
A correção nas ações de infraestrutura e tecnologia A pressão veio do mercado de crédito
O custo de proteção contra calote da Nvidia, medido pelo contrato de cinco anos, saiu de cerca de 42 pontos-base ao fim de junho para 57 em
meados de julho e 82 em 27 de julho, o maior valor já registrado.
O gatilho foram reportagens sobre compromissos de infraestrutura acima de US$ 750 bilhões. Os prêmios pagos pelas grandes empresas de nuvem para se endividar subiram para cerca de 78 pontos-base acima dos títulos do Tesouro americano, contra 50 dois meses antes. A Amazon teve de pagar 18 a 21 pontos-base a mais nos vencimentos longos de sua
emissão de US$ 25 bilhões, e a procura pelos papéis caiu para 2,5 vezes o volume ofertado, contra 3,2 vezes em março. Segundo a Apollo, essa procura em emissões do setor caiu de cerca de 5 vezes em fevereiro para menos de 2 vezes em julho.
O Morgan Stanley estima US$ 570 bilhões de dívida emitida no mundo em 2026 para financiar inteligência artificial, com US$ 236 bilhões já colocados até 31 de maio, quatro vezes o ritmo do ano anterior. Amazon, Alphabet, Nvidia, Meta, Oracle e SpaceX emitiram US$ 182 bilhões em títulos de baixo risco no ano, cerca de 15% de tudo o que as empresas americanas emitiram. Em títulos de maior risco, US$ 31,9 bilhões foram absorvidos até 8 de julho, quase tudo destinado a novos data centers. O JP Morgan projeta mais US$ 30 a 40 bilhões por ano em operações estruturadas de data center em 2026 e 2027.
A venda forçada de fundos alavancados
Os bancos que financiam fundos de investimento divulgaram ao longo de julho os dados de suas mesas de crédito a esses clientes. O que os números mostram é venda forçada por falta de garantia, e não mudança de opinião sobre as empresas.
Goldman Sachs
Segundo Vincent Lin, co-responsável pela área de análise de clientes do banco, a exposição total dos fundos que operam comprados e vendidos estava, no início de junho, no maior nível em cinco anos. Em 22 de julho já havia recuado para a faixa intermediária dos últimos três anos. A parcela dessas carteiras aplicada em semicondutores começou 2026 em 10%, dobrou para 20% e chegou a 24% em junho, o maior nível já registrado pelo banco, recuando depois para 18%. O volume vendido foi o maior em dez anos de série histórica, comparável ao episódio do meio de 2024. Os fundos venderam ao mesmo tempo as posições compradas em inteligência artificial e as proteções que carregavam contra queda de mercado, comportamento típico de quem precisa reduzir exposição rapidamente.
A cesta de ações de maior volatilidade recuou 32% do topo, e a estratégia que compra tecnologia e vende o restante do mercado perdeu 40%, a maior queda em cinco anos. Em 28 e 29 de julho, fundos comprados e vendidos recuaram 1,3% e fundos multiestratégia 1,7% no mesmo dia, algo que não acontecia desde 2020. Os fundos foram vendedores líquidos de tecnologia em seis das oito semanas anteriores, reduzindo as posições em cerca de 10%, a maior retirada do setor desde o início da série, há mais de uma década.
JP Morgan
Em nota de 17 de julho, Nikolaos Panigirtzoglou afirmou que a venda forçada iniciada em junho ainda não terminou. O patrimônio dos fundos alavancados de memória caiu 34% do pico de junho, e o conjunto dos fundos alavancados de ações caiu 13%. O banco estima cerca de três meses adicionais de mercado volátil até que esse ajuste se complete. O saldo devedor das contas de margem na bolsa de Nova York segue perto de máximas históricas, e o financiamento bancário de posições em ações já passou de US$ 220 bilhões. As estratégias de paridade de risco, por outro lado, já voltaram a níveis normais.
Chamadas de garantia
Em 28 de julho, bancos de investimento notificaram fundos com carteiras concentradas em tecnologia exigindo depósito adicional de garantias. Goldman Sachs e JP Morgan estiveram entre eles. Um fundo dedicado à inteligência artificial que operava com quatro vezes de alavancagem e acumulava alta de 400% no ano viu suas posições caírem entre 35% e 47% em julho, o que consumiu todo o capital próprio. Em 30 de julho, vendeu a carteira inteira de ações para a Citadel. No dia seguinte, as bolsas subiram em bloco no mundo todo. O Banco da Inglaterra abriu uma revisão das operações de financiamento a fundos em Londres para avaliar a concentração em ações asiáticas ligadas ao tema.
A Citadel Securities, em nota de 13 de julho assinada por Scott Rubner, avaliou que o ajuste já estava em grande parte concluído. O patrimônio dos fundos alavancados havia recuado de cerca de US$ 218 bilhões para US$ 198 bilhões, o custo de financiar posições em ações caiu de 138 para cerca de 60 pontos-base acima da taxa básica americana, e as recompras de ações autorizadas no ano ultrapassaram US$ 925 bilhões, o maior volume já registrado para o período. Os semicondutores representam hoje 18% do S&P 500, contra 5% em julho de 2021.
Federal Reserve
O Fed manteve os juros entre 3,50% e 3,75%, mas registrou uma dissidência rara: três dirigentes votaram por alta ao mesmo tempo, algo que não acontecia desde 1970. As projeções de inflação para o fim do ano subiram, e o juro de trinta anos chegou ao maior nível em dezenove anos, sinal de que o mercado desconfia da trajetória da inflação no longo prazo — não de que o Fed vá apertar os juros no curto prazo.
Tarifas
Depois de a Suprema Corte americana anular as tarifas anteriores de Trump por excesso de alcance (gerando devolução de recursos aos importadores), o governo recriou a cobrança sobre outras bases legais: 10% a 12,5% para a maioria dos países, e 25% mais uma sobretaxa de 12,5% especificamente para o Brasil. O efeito no Brasil se concentra em setores que empregam muita mão de obra e não conseguem repassar preço, como calçados, têxteis e vestuário, já que a tarifa corrói a margem das empresas, não apenas a receita.
Oriente Médio e petróleo
O conflito entre Irã e Estados Unidos escalou ao longo do mês, com ataques recíprocos e fechamento parcial do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo transportado por mar no mundo. A alta do petróleo refletiu falta de oferta, não aumento de demanda, o que pressiona a inflação global de um jeito que juros mais altos não conseguem resolver.
Investimento global em infraestrutura
Estudos recentes projetam trilhões de dólares em investimento global em infraestrutura e energia nas próximas décadas, puxados por transporte, energia elétrica e data centers, com a Ásia-Pacífico concentrando a maior fatia. Esse volume de capital compete com o financiamento dos déficits públicos dos países, o que deve manter os juros de longo prazo elevados por muito tempo. A conclusão prática: quem constrói ou fornece essa infraestrutura tende a se beneficiar, enquanto empresas que consomem capital sem gerar caixa devem sofrer com o custo do dinheiro permanentemente mais alto.
China e Coreia do Sul
A Coreia do Sul divulgou os melhores números de sua história recente (PIB, exportações e resultados da SK Hynix), mas o índice acionário local caiu cerca de 34% por venda forçada de fundos alavancados domésticos — não por fundamentos. Já a China cresceu no ritmo mais fraco desde 2022 e passou a exportar inflação industrial em vez de deflação, removendo um amortecedor que ajudava a conter a inflação global nos últimos anos.
Brasil
O Ibovespa interrompeu a sequência de quedas, mas ainda está 11% abaixo do recorde. A inflação veio melhor que o esperado, abrindo espaço para corte de juros, mas a inflação de serviços limita o tamanho desse ciclo. No lado fiscal, o problema é o crescimento da despesa, não da receita, o que sustenta o prêmio nos juros de longo prazo. O real se valorizou por diferencial de juros, dólar fraco no mundo e petróleo em alta, mas a expectativa é de alta do dólar daqui para frente. Os setores mais pressionados são siderurgia e metalurgia, varejo não essencial, telecomunicações, calçados/têxteis e petroleiras de menor porte.
Posicionamento da gestora
A Hike não mantém posição em títulos indexados à inflação (NTN-B e IPCA+), mantendo viés pessimista para essa classe, e vê risco elevado em debêntures incentivadas. A renda fixa está concentrada em FIDCs conservadores e ativos ligados a infraestrutura. Em renda variável no Brasil, a posição é seletiva em empresas menos endividadas e com geração de caixa previsível. No exterior, a visão é otimista para o dólar e para ações americanas ligadas a redes, energia, resfriamento, data centers e neoclouds.
Agenda de agosto
Três eventos definem o mês: a reunião do Copom, a ata do Federal Reserve com os dados de emprego e inflação, e a evolução do conflito no Estreito de Ormuz. A conclusão da carta é que a queda de julho abriu a melhor janela de compra do ano em ativos de infraestrutura e tecnologia, mas a venda forçada pode não ter terminado — e o custo do dinheiro deve seguir elevado por muito tempo, dado o volume de capital que o mundo precisa mobilizar para infraestrutura nas próximas décadas.
Conheça a Hike Capital e nossa abordagem para a gestão do seu patrimônio.
Angelo Belitardo
Diretor de investimentos da Hike Capital