Carta do Gestor: Petróleo, Fed e Concentração em IA

Panorama Macroeconômico

Junho consolidou uma dinâmica que já vínhamos descrevendo desde o início do trimestre: o alívio do choque geopolítico no Oriente Médio começou a se traduzir em desinflação de energia. O barril de Brent, que fechou maio a US$ 91,12, encerrou junho negociado perto de US$ 80,57, acumulando queda superior a 20% no mês e o maior recuo trimestral desde o início da pandemia, em 2020. O movimento aproximou os preços dos níveis observados antes do conflito em fevereiro, refletindo o avanço nas negociações entre Estados Unidos e Irã em torno da reabertura do Estreito de Ormuz.

O ambiente de bancos centrais também ganhou complexidade. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve realizou em 17 de junho a primeira reunião sob a presidência de Kevin Warsh, sucessor de Jerome Powell, que permanece como membro votante do FOMC na qualidade de diretor.

Na estreia, Warsh manteve os juros inalterados na faixa de 3,50% a 3,75%, pela quarta reunião consecutiva, mas surpreendeu o mercado com um tom mais duro: o novo “dot plot” deixou de sinalizar cortes e passou a apontar para uma possível alta de juros ainda em 2026, com metade dos dirigentes projetando pelo menos um aumento e parte deles vendo dois. Na Europa, o Banco Central Europeu elevou suas taxas em 25 pontos-base, o primeiro aumento desde 2023, também em resposta ao choque inflacionário de energia, enquanto o Banco do Japão surpreendeu ao subir sua taxa básica para 1,0%, o maior patamar desde 1995, na tentativa de conter a desvalorização do iene.

No Brasil, o Copom deu sequência ao ciclo de flexibilização iniciado no primeiro trimestre, cortando a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, a terceira redução consecutiva. A despeito do corte, o comunicado manteve tom cauteloso, elevando a projeção de IPCA para 2026 a 5,30%, acima do teto da meta.

O Ibovespa engatou o quarto mês consecutivo de queda, refletindo a combinação de saída de capital estrangeiro, incerteza pré-eleitoral e alta acelerada da curva de juros local, mesmo diante de um cenário externo mais benigno em relação ao conflito geopolítico. A baixa probabilidade de corte de juros nos Estados Unidos, a escalada do IPCA acima do limite da meta e a baixa demanda por títulos públicos no Brasil pressionou a curva de juros para níveis acima de 14%.

Nos mercados acionários americanos, o segundo trimestre foi o melhor para os principais índices desde 2020, com destaque para a reaceleração das teses de inteligência artificial, infraestrutura energética, data centers e cadeia produtiva dos semicondutores.

Contudo, o próprio mês de junho evidenciou os riscos de concentração desse movimento: o rebalanceamento trimestral de índices e ETFs, somado a preocupações sobre valuation e ao anúncio da Meta Platforms de que pretende vender capacidade excedente de computação de IA, concorrendo diretamente com as chamadas “neoclouds”, provocou uma correção abrupta nas ações nos primeiros dias de julho.

No entanto, permanecemos otimista com as ações de empresas de infraestrutura devido ao atual ciclo de expansão acelerada desses setores, o que preserva as expectativas de crescimento em receitas, lucro e fluxo de caixa livre dessas empresas, especialmente àquelas consideradas desalavancadas ou caixa líquida (baixo endividamento e menor exposição aos juros globais). Os programas e pacotes do governo americano irão impulsionar empresas ligadas ao setor bélico e à renovação da malha elétrica e ferroviária, razões pelas quais ainda priorizamos a alocação em ações de empresas nesses mercados.

O movimento foi sustentado por três fatores combinados: o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos, atraindo capital estrangeiro (saldo líquido de R$ 60,7 bilhões no acumulado do ano até 28 de abril); a rotação global a favor de mercados emergentes diante do enfraquecimento generalizado do dólar; e a melhoria nos balanços financeiros das empresas listadas na B3, com a Petrobras adicionalmente beneficiada pelo Brent acima de US$ 110, e expansão de empresas ligadas ao agronegócio e ao setor de transportes e logística.

O dólar Ptax caiu 4,42% em abril e 9,34% no acumulado do ano, fechando a R$ 4,9523, menor patamar desde março de 2024, colocando o real entre as moedas com melhor desempenho global.

Os principais riscos para o Brasil são a trajetória da dívida pública, o calendário eleitoral de 2026 começando a entrar no preço dos ativos, e o eventual repasse cambial caso o real perca tração. Nesse cenário de dólar em queda, riscos inflacionários, e juros altos no Brasil, mantemos um viés otimistas para setores como infraestrutura energética, seguradoras, proteína animal, educação, farmácias e transporte e logística, ambas em ciclo claro de desalavancagem financeira.

Brasil: Selic em queda, mas com cautela; inflação ainda pressionada e bolsa no quarto mês de perdas

 

O IPCA-15 de maio, divulgado em 27 de maio pelo IBGE, avançou 0,62%, superando a estimativa mediana do mercado de 0,53%. O índice acumulou 4,64% em 12 meses, ultrapassando pela primeira vez no ano o teto da meta contínua do Banco Central, que é de 4,5%. 

O resultado do período de coleta de 16 de abril a 15 de maio revelou pressão disseminada: alimentação e bebidas subiram 1,38%, habitação avançou 1,03%, com destaque para a alta de 2,16% na energia elétrica residencial, decorrente da entrada em vigor da bandeira tarifária amarela, e o núcleo do IPCA-15 também registrou alta de 0,46%, sinal de que as pressões de energia começam a se espalhar para outros componentes da cesta. Apenas o grupo de transportes apresentou variação negativa, de 0,33%, em resposta à queda do petróleo no final do mês.

O boletim Focus da última semana de maio revisou a projeção de IPCA para 5,04% em 2026, acima dos 4,86% registrados na semana anterior ao Copom de abril. A expectativa para a Selic ao final do ano foi mantida em 13,25%, sinalizando um ciclo de cortes curto e dependente da evolução do conflito no Oriente Médio. 

O IPCA cheio de abril, divulgado em 12 de maio, havia registrado 0,67%, desacelerando em relação aos 0,88% de março, mas o acumulado em 12 meses subiu para 4,39%.

O Ibovespa fechou maio aos 173.787 pontos, com queda de 7,06% no mês, a sétima semana consecutiva de perdas e o pior desempenho mensal desde fevereiro de 2023. A correção acumula cerca de 25 mil pontos desde a máxima histórica de 198.657 registrada em 14 de abril. O índice ainda acumula alta de 7,86% no ano. 

A saída líquida de estrangeiros foi estimada em R$ 14,1 bilhões até o dia 27 de maio, revertendo parte do fluxo expressivo que havia sustentado a bolsa no início do ano. O dólar Ptax encerrou acima de R$ 5,00 ao longo do mês, com alta de 1,82% em maio, revertendo parte da apreciação do real dos meses anteriores.

O JP Morgan destacou em relatório divulgado durante o mês que três fatores adversos passaram a alterar o equilíbrio de risco-retorno no Brasil: o aumento da incerteza política relacionada ao calendário eleitoral de 2026, um ciclo de afrouxamento monetário do BC mais curto e menos intenso do que o esperado, e a aceleração do afrouxamento fiscal no período pré-eleitoral (expansão dos gastos e da necessidade de endividamento). 

O banco manteve perspectiva de fundamentos resilientes, mas avaliou que essas dinâmicas devem pressionar o equilíbrio entre risco e retorno até outubro.

No plano fiscal, a dívida bruta do governo geral permanece em trajetória ascendente, com o Tesouro Nacional projetando 83,6% do PIB ao final de 2026 e pico de 88,6% em 2032. 

Os dados do déficit primário e o custo médio crescente da dívida pública continuam sendo monitorados de perto pelo mercado, especialmente em um ambiente em que o prazo médio da dívida se reduz e a necessidade de rolagem aumenta. A Hike Capital mantém cautela em relação a títulos de renda fixa com duration elevado ou indexados à inflação no contexto atual, tendo em vista os maiores riscos de reprecificação da curva.

No cenário atual, seguimos com visão positiva para setores que combinam crescimento de receita visível, desalavancagem financeira e proteção relativa contra inflação: infraestrutura energética, transporte e logística, proteína animal, farmácias e seguradoras. 

Empresas com contratos de longo prazo, receita indexada e balanços sem dependência de capital de terceiros a curto prazo estão melhor posicionadas para atravessar o período eleitoral com menor volatilidade.

EUA: Warsh assume o Fed em tom mais duro; mercado de trabalho perde força nos dados de hoje

Junho marcou uma transição histórica no Federal Reserve: Kevin Warsh assumiu a presidência do banco central americano e conduziu, em 17 de junho, sua primeira reunião de política monetária à frente do FOMC. O comitê manteve os juros inalterados, na faixa de 3,50% a 3,75%, pela quarta vez consecutiva, em decisão unânime de 12 a 0. A grande mudança veio no tom: o novo “dot plot” abandonou qualquer indicação de viés para cortes e passou a sinalizar a possibilidade de alta de juros ainda em 2026, nove dos dezoito membros votantes projetam pelo menos um aumento até o fim do ano, com seis deles prevendo dois aumentos de 25 pontos-base.

As projeções de inflação PCE para o fim de 2026 saltaram de 2,7% (estimativa de março) para 3,6%, enquanto a taxa de desemprego é vista em 4,3% e o crescimento do PIB foi revisado para baixo, de 2,4% para 2,2%. Powell, agora apenas diretor, seguiu como voto na decisão, mas não mais conduziu a coletiva de imprensa, papel assumido por Warsh, que anunciou ainda mudanças na comunicação do Fed, incluindo um comunicado mais curto e direto. A reação inicial dos mercados foi de aversão a risco: o S&P 500 caiu 1,06%, o Nasdaq recuou 1% e o Dow Jones perdeu mais de 410 pontos na sessão.

Os dados divulgados nesta quinta-feira (2 de julho), referentes a junho, reforçaram o quadro de moderação do mercado de trabalho americano que já vinha sendo sinalizado pelo ADP na véspera.

O relatório de emprego privado da ADP mostrou criação de apenas 98 mil vagas em junho, abaixo dos 122 mil de maio e da expectativa de 113 mil, com o setor de lazer e hotelaria registrando o sexto mês seguido de contratações fracas.

Já o payroll oficial, divulgado pelo Bureau of Labor Statistics, mostrou criação de apenas 57 mil vagas em junho, bem abaixo da mediana de mercado de 110-115 mil e do resultado de maio, revisado para baixo de 172 mil para 129 mil. As revisões de abril e maio, em conjunto, retiraram 74 mil postos de trabalho do total anteriormente reportado.

A taxa de desemprego recuou para 4,2%, mas o movimento refletiu sobretudo a queda na taxa de participação da força de trabalho, para 61,5%,o  menor nível desde março de 2021. Os salários médios por hora subiram 0,3% no mês e 3,5% em 12 meses. A reação inicial do mercado foi de alívio: os futuros de ações subiram e os yields do Tesouro recuaram, com os operadores reduzindo a probabilidade de uma alta de juros já em setembro, na leitura de que o Fed dificilmente terá pressão para apertar a política monetária com um mercado de trabalho perdendo tração dessa forma.

Uma eventual mudança na rota da política monetária do FED, com manutenção ou maior probabilidades de queda nos juros, deve beneficiar principalmente as empresas alavancadas e em crescimento acelerado de receita, como àquelas presentes em um novo mercado: o setor de Neocloud, composta por empresas que fornecem poder de processamento em alta complexidade e escala para IA, especialmente as empresas mineradoras de bitcoin em transição energética, alterando o seu atual modelo de negócios para o modelo de Neoclouds.

Essas companhias estão em um ciclo intensivo em capital e de aumento no endividamento para aquisição de GPUs da NVIDIA, redes e equipamentos de resfriamento líquido. Uma eventual melhora no cenário de juros americano deverá refletir em uma rápida reprecificação no preço das ações ligadas a esse mercado.

Observamos um movimento direcionado de investidores institucionais buscando capitalizar de forma agressiva as empresas em transição energética mencionadas acima e, considerando o atual cenário de escassez global de energia e a crescente demanda em escala por infraestrutura, mantemos um viés otimista para o comportamento do setor ao longo dos próximos anos. Grande parte desse otimismo volta para a nova cadeia de fornecedores capazes de tornar viável a nova arquitetura tecnológica da NVIDIA, a Vera Rubin.

Do lado dos mercados, o segundo trimestre foi o melhor para os principais índices americanos desde 2020. O Dow Jones encerrou junho em recorde histórico, aos 52.319,20 pontos, com alta de 2,52% no mês, 12,9% no trimestre e 8,85% no semestre, o melhor desempenho para os seis primeiros meses.

O S&P 500 e o Nasdaq Composite também fecharam o trimestre com ganhos expressivos, acumulando alta de 9,55% e 12,79% no ano, respectivamente, impulsionados pela reaceleração das teses de inteligência artificial, infraestrutura de data centers e semicondutores, e por uma temporada de resultados corporativos consistentemente acima das expectativas.

Esse otimismo, no entanto, convive com sinais de concentração e nervosismo pontual. O mês de junho tradicionalmente concentra o rebalanceamento trimestral de índices e ETFs, e esse movimento técnico se somou a um crescente desconforto do mercado com os múltiplos elevados do setor de semicondutores, hedge funds chegaram a montar a maior aposta líquida da história no setor, hoje concentrando cerca de 35% da exposição setorial agregada em carteiras institucionais, segundo levantamentos de mercado.

Na última quarta-feira (1º de julho), o índice de semicondutores recuou 6,3% em um único pregão, com Micron caindo mais de 10%, e Applied Materials, Lam Research, Allegro MicroSystems, KLA CORP, NOVA e Intel perdendo mais de 9% cada uma.

O movimento se estendeu ao pré-mercado desta quinta-feira, com Western Digital, Coherent, Marvell, AMD e Microchip Technology em queda adicional, pressionados por uma combinação de valuations esticados e preocupações renovadas com o ritmo de gastos de capital das grandes empresas de tecnologia em infraestrutura de inteligência artificial.

O gatilho mais direto para essa reprecificação, contudo, veio de uma notícia aparentemente positiva: a Meta Platforms revelou que está estruturando um novo negócio de nuvem para monetizar o excedente de sua capacidade computacional de IA.

A ideia contempla dois formatos: uma plataforma de hospedagem de modelos de IA nos moldes do Bedrock, da AWS, e a venda de capacidade computacional bruta, replicando o modelo das neoclouds. O mercado reagiu com entusiasmo às ações da própria Meta, que dispararam mais de 9% no dia, a maior alta intradiária da ação desde abril, na leitura de que a companhia finalmente encontrou uma via concreta de monetização para os mais de US$ 135 bilhões em capex projetados para 2026.

O reverso da moeda recaiu justamente sobre as neoclouds: CoreWeave e Nebius caíram cerca de 12% a 13% cada uma, com analistas como Gil Luria, da D.A. Davidson, apontando que “o impacto de adicionar a capacidade da Meta ao mercado provavelmente recairá mais sobre as neoclouds do que sobre os hyperscalers (grandes empresas de tecnologia que usam infraestrutura de IA em larga escala), já que empresas como CoreWeave (neocloud) dependem estruturalmente de contratos com a própria Meta para sustentar seu crescimento.

Entendemos esse movimento como um ajuste pontual de curto prazo, e não como uma inflexão na tese estrutural de crescimento do setor de neoclouds e infraestrutura de IA. A demanda por capacidade computacional para treinamento e inferência de modelos de IA segue, na prática, superando a oferta disponível globalmente, o que motivou, inclusive, o próprio movimento da Meta de tentar capturar parte dessa monetização, e não refletindo um risco iminente de competição acirrada.

Empresas do ecossistema de neoclouds mantêm backlogs contratados em expansão, com contratos plurianuais que blindam parte relevante de sua receita projetada, e a entrada de um novo concorrente relevante tende a ser absorvida ao longo do tempo, sem alterar a trajetória de crescimento acelerado e lucrativo dessas companhias no médio prazo.

Mantemos, portanto, a convicção otimista na cadeia de infraestrutura de IA (energia, sistemas elétricos, redes, resfriamento, memória, wafers, metrologia e neoclouds), ainda que reconhecendo que a volatilidade de curto prazo deve permanecer elevada, sobretudo em períodos de rebalanceamento técnico de carteiras como o de junho.

O foco na alocação deve recair sobre empresas em crescimento acelerado de fluxo de caixa livre, ROIC elevado e baixo endividamento, capazes de sustentar múltiplos elevados por tempo prolongado. Atualmente, preferimos empresas de qualidade e crescimento previsível em detrimento de ações de empresas descontadas mas com baixa qualidade de balanço.

Oriente Médio: Cessar-fogo frágil, mas efetivo o suficiente para derrubar o petróleo difícil

O acordo provisório entre Estados Unidos e Irã, firmado ainda em maio, seguiu avançando de forma irregular ao longo de junho. A reabertura gradual do Estreito de Ormuz permitiu a passagem de petroleiros que estavam retidos desde o início do conflito, incluindo navios de bandeira saudita carregando milhões de barris de petróleo bruto, o que ajudou a acelerar a queda dos preços de energia observada desde maio.

O Brent, negociado na ICE de Londres, encerrou o mês na casa de US$ 80,57 por barril, e o WTI em torno de US$ 76,54, ambos se aproximando dos níveis vigentes antes da eclosão do conflito em fevereiro. No acumulado do mês, a queda superou 20%, e no trimestre, o recuo foi o mais acentuado desde o início da pandemia, em 2020.

Apesar do avanço nas negociações, o mês não foi isento de sobressaltos. Houve episódios de retórica mais dura entre autoridades americanas e iranianas, relatos conflitantes sobre os termos exatos do acordo, incluindo divergências sobre inspeções nucleares e sobre o grau de controle iraniano remanescente sobre o Estreito, e chegou a haver suspensão temporária de negociações indiretas em meio a novos ataques israelenses reportados no Líbano.

Ainda assim, o mercado seguiu tratando o cessar-fogo como razoavelmente duradouro, precificando uma trajetória de normalização gradual da oferta de energia, mesmo com a compreensão de que o conflito subjacente, sobretudo em relação ao programa nuclear iraniano, permanece longe de uma resolução definitiva.

A queda do petróleo tem impactos assimétricos entre regiões e setores. Do lado positivo, ela alivia a pressão inflacionária sobre economias importadoras líquidas de energia, caso do Japão, da Coreia do Sul e da União Europeia, e abre espaço para bancos centrais que haviam sido forçados a apertar a política monetária em resposta ao choque energético.

Do lado negativo, ela pressiona os resultados de empresas produtoras e cadeias ligadas à commodity, com reflexos já visíveis sobre ações do setor em diferentes bolsas, incluindo a Petrobras no Brasil.

Mantemos monitoramento próximo da evolução das negociações e do comportamento do Brent como principal variável de calibração das projeções inflacionárias globais para o segundo semestre, a persistência da queda de preços, se confirmada, pode abrir espaço para uma postura menos restritiva por parte de bancos centrais que endureceram sua comunicação justamente em resposta ao choque energético, caso dos EUA, da União Europeia e do Japão.

China e Coreia do Sul: Indústria chinesa resiliente; exportações sul-coreanas batem recorde histórico puxadas por chips

Na China, a atividade industrial manteve-se em expansão pelo sétimo mês consecutivo em junho, com o PMI industrial privado recuando ligeiramente, de 51,8 em maio para 51,7 em junho, a leitura mais fraca em três meses, mas ainda distante do território de contração.

O trimestre encerrado em junho foi o mais forte para o setor industrial chinês desde o quarto trimestre de 2020, sustentado por novos pedidos que cresceram pelo décimo terceiro mês consecutivo, empatando a sequência mais longa de expansão desde 2018, e por uma recuperação no emprego industrial, que voltou a crescer após três meses de estabilidade.

O ponto de atenção segue sendo a demanda externa: os novos pedidos de exportação caíram pelo segundo mês consecutivo, refletindo tanto a fraqueza do comércio global quanto os efeitos residuais de tarifas americanas sobre bens de consumo chineses.

O consumo doméstico, como já vínhamos destacando, permanece o principal vetor de fragilidade da economia chinesa, e o comprometimento com a meta de crescimento entre 4,5% e 5,0% para 2026, a menor em décadas, segue dependendo de estímulos direcionados a infraestrutura, tecnologia e consumo, sem medidas agressivas de curto prazo.

A Coreia do Sul, por sua vez, entregou um dos dados comerciais mais expressivos de sua história recente.

As exportações de junho dispararam 70,9% em base anual, atingindo um recorde mensal de US$ 102,25 bilhões, o ritmo de expansão mais rápido desde outubro de 1978. As importações

cresceram 30,1%, para US$ 66,10 bilhões, resultando em superávit comercial recorde de US$ 36,15 bilhões, superando pela primeira vez a marca de US$ 30 bilhões em um único mês.

Os semicondutores seguiram como o principal motor desse resultado, com exportações de chips atingindo novo recorde mensal de US$ 44,82 bilhões, praticamente triplicando em relação ao ano anterior, em um contexto de demanda global por infraestrutura de inteligência artificial que segue sem sinais de arrefecimento.

Por destino, as exportações para os Estados Unidos e para a China avançaram 79% e 92%, respectivamente, enquanto as remessas para o Oriente Médio caíram 8,4%, refletindo o impacto residual do conflito e da reorganização de rotas logísticas na região.

Apesar do resultado recorde, o índice acionário KOSPI recuou cerca de 2% no início de julho, o maior tombo da região asiática, em movimento de realização de lucros após uma valorização de quase 65% no segundo trimestre, um dos trimestres mais expressivos já registrados para a bolsa sul-coreana, junto com uma alta superior a 36% do Nikkei japonês no mesmo período.

Mantemos visão positiva para fabricantes de chips de memória e de equipamentos para semicondutores sul-coreanos, dada sua exposição direta à demanda estrutural por capacidade de data center voltada à inteligência artificial, ainda que reconheçamos o risco de correções técnicas pontuais após uma valorização  acentuada em um curto período de tempo.

Japão: BoJ eleva juros ao maior nível desde 1995, mas iene despenca a mínima de décadas

O Banco do Japão surpreendeu o mercado global em 16 de junho ao elevar sua taxa básica de juros de 0,75% para 1,0% ao ano, o maior patamar desde 1995, em uma tentativa de conter a sangria do iene e ancorar expectativas de inflação que já superam a meta de 2% há mais de três anos consecutivos.

A decisão veio acompanhada do anúncio de redução do ritmo de compra de títulos do governo japonês (JGBs) em 200 bilhões de ienes por trimestre, com o processo previsto para durar até o primeiro trimestre de 2027.

O vice-presidente do BoJ, Shinichi Uchida, reforçou que o ciclo positivo entre salários e preços está funcionando de forma consistente, mas alertou que os movimentos cambiais seguem sendo um fator crítico para a economia e para a trajetória de preços.

Paradoxalmente, mesmo com a alta de juros, o iene continuou sob pressão intensa ao longo do mês, chegando a atingir mínimas de várias décadas frente ao dólar já nos últimos dias de junho e início de julho, em um movimento que analistas atribuem à combinação de diferencial de juros ainda muito favorável ao dólar, à forte valorização da bolsa japonesa, o que tende a reduzir o apelo relativo do iene como ativo de refúgio, e à reativação de posições de carry trade, nas quais investidores tomam ienes emprestados a custo baixo para investir em ativos de maior rendimento em outras moedas.

O Ministério das Finanças japonês já havia gasto recursos recordes em intervenções cambiais entre o fim de abril e maio para tentar sustentar a moeda, sem sucesso duradouro. Em meio a esse quadro, a primeira-ministra Sanae Takaichi anunciou, em 26 de junho, um amplo programa de investimento público e privado da ordem de US$ 2,3 trilhões ao longo de 14 anos, voltado a infraestrutura e crescimento econômico, o que reforça a tese duradoura da cadeia produtiva da IA e à continuidade da política fiscal expansionista, mesmo em um contexto de dívida pública já superior a 260% do PIB, a maior entre economias desenvolvidas.

Esse ambiente, de juros mais altos, mas iene ainda fraco, e expansão fiscal simultânea, mantém o Japão em uma posição delicada.

Os juros maiores das JGBs tendem a intensificar a necessidade de repatriação de capital por parte de investidores japoneses, historicamente grandes financiadores da dívida americana, o que deve continuar pressionando as taxas de juros de longo prazo nos Estados Unidos e em outros mercados desenvolvidos.

Razão pela qual mantemos um viés pessimista para ativos de risco em economias emergentes ou sensíveis a juros. Mantemos posição construtiva em exportadoras industriais japonesas beneficiadas pelo câmbio depreciado, bancos e fabricantes de equipamentos para semicondutores, e cautela em relação a importadores e ao varejo doméstico, mais sensíveis ao custo da energia importada e à erosão do poder de compra das famílias.

União Europeia: BCE sobe juros pela primeira vez desde 2023, mas inflação de junho surpreende para baixo

O Banco Central Europeu elevou suas três taxas de juros diretoras em 25 pontos-base na reunião de 11 de junho, com efeitos a partir do dia 17, o primeiro aumento desde setembro de 2023, encerrando quase três anos de pausa e cortes na política monetária da Zona do Euro.

A taxa de depósito passou de 2,00% para 2,25%, a de refinanciamento principal de 2,15% para 2,40%, e a de cedência de liquidez de 2,40% para 2,65%. A decisão refletiu a aceleração da inflação da região para 3,2% em maio, o maior patamar em quase três anos, impulsionada majoritariamente pelo choque de energia derivado do conflito no Oriente Médio, com o núcleo de inflação também avançando de 2,2% para 2,5%.

As novas projeções do BCE passaram a estimar inflação média de 3,0% para 2026, ante 2,6% previstos em março, ao mesmo tempo em que revisaram para baixo o crescimento econômico esperado para 2026 e 2027, evidenciando o dilema clássico entre conter preços e não travar ainda mais uma atividade já fragilizada.

O desfecho do mês, no entanto, trouxe um alívio inesperado: a estimativa rápida do Eurostat, divulgada em 2 de julho, mostrou que a inflação da Zona do Euro recuou para 2,8% em junho, ante 3,2% em maio, superando as expectativas de desaceleração mais tímida (3,0%) e beneficiada pela reversão nos preços de energia, alimentos e serviços.

O núcleo de inflação também cedeu, de 2,6% para 2,4%, com a inflação de serviços recuando de 3,5% para 3,2%. A queda mais acentuada do que o esperado reduz a pressão imediata sobre o BCE para dar continuidade ao ciclo de altas já em julho, e à margem do Fórum anual do banco central em Sintra, diversos membros do Conselho de Governadores, incluindo os presidentes dos bancos centrais da Áustria e da Bélgica, sinalizaram que a decisão entre nova alta e pausa em julho e setembro segue em aberto, dependente da evolução dos dados, sobretudo da dinâmica salarial, apontada como o principal risco residual para uma nova aceleração inflacionária.

A economia da região seguiu crescendo em ritmo modesto, com o PIB do primeiro trimestre em expansão de apenas 0,8% em base anual, refletindo a dependência energética estrutural do bloco e os efeitos ainda presentes do fechamento parcial do Estreito de Ormuz sobre custos industriais e competitividade das exportações europeias.

Destaque para os Ativos Offshore:

Rebalanceamento de junho expõe a concentração do trade de IA; neoclouds seguem estruturalmente sólidas

O mês de junho, tradicionalmente marcado pelo rebalanceamento trimestral de índices como S&P 500, Nasdaq-100 e diversos ETFs setoriais, evidenciou de forma mais clara um ponto que já vínhamos sinalizando em cartas anteriores: a extrema concentração do mercado acionário americano em torno de um número reduzido de empresas ligadas à inteligência artificial e à infraestrutura digital. 

Uma pesquisa do Bank of America mostrou que cerca de 80% dos investidores globais consideram “comprar semicondutores” o trade mais lotado do mercado atualmente, a segunda maior leitura desde 2014, com a exposição líquida de hedge funds ao setor batendo recorde histórico de aproximadamente 35% da exposição setorial agregada, mais que triplicando em doze meses. 

Esse grau de concentração torna o mercado mais suscetível a movimentos abruptos de correção, mesmo sem qualquer deterioração relevante nos fundamentos das empresas envolvidas: bastou o rebalanceamento técnico de portfólios, somado a um catalisador específico, para gerar uma correção expressiva superior à 20% em apenas 2 dias.

A leitura da Hike Capital é de que se trata de um movimento de realocação tática dentro do próprio ecossistema de inteligência artificial, e não de uma reversão da tese estrutural. A demanda por capacidade computacional para treinamento e inferência de modelos de IA segue, na prática, superando a oferta disponível globalmente, motivo pelo qual a própria Meta decidiu monetizar seu excedente em vez de mantê-lo ocioso. 

As neoclouds e empresas de infraestrutura energética mantêm backlogs contratados em expansão acelerada e contratos plurianuais que blindam parte relevante de sua receita projetada nos próximos anos, como refleo de uma demanda agregada que continua crescendo em ritmo superior à capacidade instalada global. 

Mantemos, portanto, convicção na trajetória de crescimento acelerado e lucrativo dessas companhias, ainda que reconheçamos que episódios de volatilidade como o de junho devem se repetir sempre que o mercado revisar as premissas de crescimento no fluxo de caixa e ROIC em infraestrutura de IA.

Foto de Angelo Belitardo

Angelo Belitardo

Diretor de investimentos da Hike Capital

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